Viviane.93

Sonhos de um menino que cresceu

Penso no menino.

No menino recolhido,

chorando baixo,

engolindo a própria chuva

porque homem não chora.

 

Penso na primeira música 

cordas ainda duras,

dedos aprendendo o caminho 

na esperança breve de ouvir:

“muito bem, meu filho”.

 

E o silêncio.

Sempre o silêncio

dedilhado junto.

 

Penso no rapaz,

no rapaz que queria ser palco,

queria ser horizonte,

queria que o próprio nome

ecoasse inteiro no mundo.

 

Ele afinava sonhos

antes de sair para o trabalho.

Mas o mundo marca o tempo

com relógios rígidos,

E ele aprendeu o ritmo

das contas vencendo,

dos dias iguais,

da pressa que não aplaude ninguém.

 

O violão ficou esperando.

Como quem espera visita

que nunca confirma chegada.

 

Penso que recebeste pouco.

Muito pouco.

E ainda assim,

do pouco fizeste casa,

do pouco fizeste riso,

do pouco fizeste abraço.

Do teu jeito 

sempre do teu jeito 

me amaste.

 

Hoje, quando lembro,

já não ouço apenas o silêncio.

Ouço o que estava escondido nele.

E sussurro,

como quem devolve a

música ao início:

Muito bem, meu pai.

Muito bem.