Soneto da Colcha de retalhos!
A vida é inverno antigo e sem partida,
céu baixo, ossatura exposta ao corte;
um frio que aprende o nome da morte
e o grava, lento, na pele vencida.
Tecemos, às cegas, trama precária erguida,
fio contra o avanço bruto do norte;
remendo sobre a carne que suporte
o peso da estação não escolhida.
Mas o tempo — ferrugem — rói a malha;
retalho após retalho cede ao vento,
e a lã se abre em silêncio que retalha.
O pulso falha, o gesto perde intento;
fica no colo a colcha — e quem a espalha
já não distingue abrigo de tormento.