Maicon Rigon

A Contabilidade Secreta do Amor

Se eu amar alguém
E esperar na volta um valor equivalente,
Que pese na mesma balança,
Não é amor 
É contrato.
É negócio travestido de sentimento.

O amor verdadeiro, esse sim,
Habita nos gestos mudos,
Na proteção que o outro jamais notará,
No cuidado gratuito,
No afeto que não exige recibo.

E se o retorno vier torto,
Ou nem vier 
Se vier desdém, indiferença, desprezo 
Aí está a prova final:
Se o teu peito ainda pulsar por essa pessoa,
Mesmo ferido,
Mesmo ignorado,
Então mereces que o universo,
Num descuido qualquer,
Te devolva o amor que ofereces
Sem cálculo e sem vaidade.

Essa história bonita
De “valorizar-se”,
De “priorizar-se”,
Funciona bem nos vídeos de autoajuda,
Nos discursos higienizados
De influenciadores famintos por aplausos
De almas autocentradas.

Mas se, por um instante que seja,
Tiveres o privilégio de sentir o amor que não negocia,
O amor que não pede troco,
O amor que simplesmente é,
Então tua breve passagem por aqui
Já se justificou inteira.