Minha escrita é o rastro de fogo que precede o teu toque.
Lê-me como quem se consome em altar pagão,
enquanto a tinta, ainda quente, profana o teu recato
e o texto penetra o silêncio denso da tua alcova.
Deixa que o ritmo dos meus versos guie a tua palma;
sente o relevo das letras despertando o ápice dos teus seios,
que se erguem, intumescidos, como oferendas ao indizível.
Há uma fome que a gramática mal consegue conter
quando a tua respiração se quebra, curta, rascunhada,
e o primeiro gemido — essa nota rouca e sem semântica —
escapa dos teus lábios como o batismo de uma nova língua.
Não negues ao corpo a exegese do desejo.
Desce a mão, lenta, por entre as margens das tuas coxas,
até encontrar o centro de toda a tua umidade: a flor.
Ali, onde o abismo é pétala e o segredo é linfa,
tateia a rima mais profunda, o nervo vivo da minha prosa,
enquanto o clímax da gramática encontra a tua própria mão.
Bebe de ti mesma enquanto me devoras.
Que o teu gozo seja o ponto final que eu sempre quis escrever.