MAISA NALAPE

À Luz da Vela

Na minha adolescência, em África,

o mundo cabia num caderno.

Sentada no chão,

vela acesa ao meu lado,

caneta na mão,

eu escrevia como quem respira amor.

 

O meu cabelo, penteado à moda afro,

crespo, livre, majestoso,

erguia-se como coroa da minha juventude.

Eu não sabia

que naquela noite

ele dançaria com o fogo.

 

Tão concentrada nos versos,

tão mergulhada nos sonhos,

não senti o calor subir devagar,

não ouvi o sussurro das chamas

a beijarem os meus fios.

 

Até que um grito rasgou o silêncio:

 

— Aia! Aia! O cabelo da Maisa está a pegar fogo!

Era o meu irmão,

voz trémula, olhos assustados,

chamando pela nossa mãe —

Aia, o nosso abrigo.

 

Ela não hesitou.

Não perguntou.

Não pensou.

 

Correu.

 

Com a mão nua

apagou o incêndio

que ameaçava a minha coroa.

 

Ficou o cheiro de cabelo queimado,

metade dos fios perdidos,

metade da vaidade no chão.

 

Olhei-me ao espelho

e decidi:

se é para recomeçar,

que seja inteira.

 

Raspei tudo.

 

Porque o meu cabelo cresce rápido —

mas a coragem também.

 

Hoje, quando lembramos,

não falamos do susto,

nem da chama,

nem do cabelo perdido.

 

Falamos do amor que correu primeiro.

E rimos.

Rimos até doer a barriga,

porque a vida é assim —

às vezes arde,

mas quase sempre ensina

a sorrir depois.