Quando eu era pequena,
tu falavas comigo como mulher feita,
como se o meu coração
já soubesse o peso do mundo.
Sentavas-te na noite escura,
com a fogueira acesa,
e o fogo dançava nos teus olhos
como se guardasse segredos antigos.
Eu dizia:
“Sou apenas uma criança.”
Tu sorrias e respondias:
“Um dia vais lembrar-te de tudo,
como o fogo que nunca esquece a lenha.”
Falavas-me de caminhos,
de respeito pelos mais velhos,
mesmo quando erram,
porque o respeito é raiz
que sustenta a vida.
Na aldeia murmuravam,
não sabiam que me protegias
ao proibir-me outras mesas,
que me ensinavas disciplina
com mãos firmes e coração doce.
Ensinaste-me a cozinhar cedo,
a trabalhar no mato,
a ser forte antes do tempo —
e mesmo assim
fizeste da minha infância
um lugar feliz.
Hoje compreendo o que antes
não sabia explicar.
O fogo que acendias lá fora
arde agora dentro de mim.
Sou mãe.
Sou mulher.
Sou parte do teu ensinamento.
E quando a noite fica silenciosa,
ainda sinto a tua voz
a conversar comigo
à luz de uma fogueira eterna.
Saudades, minha avó. ?