No silêncio da casa, o frio se instalava,
Onde o eco de insultos a alma cortava.
A dor era o pão de cada refeição,
Em um peito quebrado, sem mais direção.
A angústia batia à porta, cruel e constante,
Tornando o homem um vulto, um mero figurante.
No espelho, o reflexo de um ser que definha,
Preso em um laço que a vida amofinha.
O sofrimento era mudo, um abismo profundo,
Pensou em deixar, de uma vez, este mundo.
Mas no ápice da sombra, prestes a desistir,
Viu duas luzes que o fizeram insistir.
Ao olhar para as filhas, o pranto parou,
E as lágrimas de queda o amor transformou.
Por elas, ele aceitou o inverno e o deserto,
Para garantir que o futuro delas fosse certo.
Foram anos de luta, e entrega,
Pois quem ama de fato, nunca se nega.
Definhou na tristeza para vê-las crescer
Mas o tempo passou e o silêncio cresceu,
Tornando-se o muro onde o amor se perdeu.
Hoje elas olham com olhos de julgamento,
Sem saber da angústia e do seu tormento.
Acham que o adeus foi fruto de traição,
Pois ele ocultou toda a humilhação.
O sofrimento agora mudou de lugar:
Não é mais o cárcere, é o não poder explicar.
As lágrimas caem por ser o \"vilão\",
De uma história escrita com pura abnegação.
Ele aceita o fardo, o desprezo e o cansaço
Sem culpa ou remorso por buscar o seu cais,
A dor da renúncia não o fere jamais.
Ao lado de sua amada, a vida é leveza,
Longe da angústia e da fria incerteza.
Se o amor delas falta, o dele sobra em si,
Fez tudo o que pôde até o dia em que partiu.
Agora caminha com o peito em sossego,
Livre do medo e de todo o apego.
As lágrimas de hoje são de paz e de luz,
Pois ele largou, finalmente, a sua cruz.