RGGouveia

Lápide moderna

 

A Lápide Moderna

 

Cinco da manhã.

Acordei às quatro e meia, antes dos passarinhos na janela do quarto.

Sentei primeiro, até estabilizar.

Pés no chão, cabeça não. Já acordei voando.

Abro a janela. Deixo o coração se manifestar em agradecimento. A manhã vem devagar, em transição. A mesma paisagem: o quintal, o muro, os pinheiros, o mundo clareando.

O canto , ou melhor, a algazarra dos passarinhos , ajuda a iluminar.

Tudo igual a ontem e aos dias de antes de ontem.

Mas tudo sutilmente diferente.

Faço uma oração. Penso e escrevo um poema mentalmente. Às vezes salvo, às vezes deleto. Acostumei-me com a tecnologia e deixei o papel de lado. Prefiro minha letra , é só minha, mas por alguma dificuldade motora, abandonei. Ou quase.

Meu processo sempre foi assim, desde os dezesseis, dezessete anos. Fui acumulando minha biografia em versos escondidos atrás de portões trancados pelo lado de dentro.

Hoje, sessenta e quatro  quase sessenta e cinco , tenho vontade de publicar. Mas continuo, por motivos diferentes, preso nos meus porões.

Casei. Esposa,um filho. Irmãos. Anigos. Minha mãe, noventa e um , quase noventa e dois, ainda querendo decidir pelos filhos como viver melhor. Graças a Deus.

Relendo o que escrevi, vejo relatos da minha vida que não consigo revelar. Há leveza, sim, mas entremeada de uma melancolia intrínseca.

Não quero que me entendam mal.

Que me vejam como sofredor contumaz , o que não sou.

E é isso que quero evitar.

Estranhos não fariam esse juízo.

 

Mais uma vez na mesma janela.

Mais uma vez a madrugada se abrindo.

Em meio à oração, surge a ideia da impermanência.

E se eu me revelasse postumamente?

Como fazer isso sem envolver ninguém quando chegar a hora de partir?

Absorto, pego o celular para registrar. Enquanto procuro o arquivo certo, surge na tela um QR code. Nem sei para onde levaria. Não abro.

Mas a ideia estava plantada.

Minha biografia poética inteira.

Um eu digital post mortem.

Um poema na lápide.

Um QR code póstumo.

Passei a digitar o acervo. Pronto.

Tudo planejado para a revelação.

Para quando Deus quiser.

Imagino esse dia como uma brisa suave apagando uma chama.

Eu caminhando no parque, em meio à natureza. Um pássaro passa flutuando, um daqueles da algazarra matinal. Lembro dele. Era singular.

Fecho os olhos e assobio uma melodia familiar.

Passa um filme na cabeça.

Meu filho. Minha mulher. Minha mãe. Irmãos. Amigos.

Todos lendo um livro.

Um leve sorriso…

Todos passam a assobiar a mesma música.

Voam comigo