Abismopoetico2026

O último romântico

 eu tô cansado de fingir que tá tudo bem.  

Tô exausto de engolir essa modernidade que transformou sentimento em estatística, em “quantos corpos eu tenho no currículo”, em quem “jogou melhor” na noite de ontem.

 

Eu ainda sou o cara que escreve carta à mão e guarda cópia porque tem medo de perder.

O cara que escuta uma música antiga e pensa em alguém que nem existe mais na minha vida, mas que ainda mora no peito.  

O cara que olha pro céu quando tá chovendo e imagina como seria bom estar debaixo da mesma chuva com a pessoa certa, sem precisar postar nada, sem precisar provar pra ninguém.

 

E aí eu olho pros lados e parece que todo mundo tá jogando o mesmo jogo:  

quem pega mais, quem desbanca mais rápido, quem não se apega, quem “não perde tempo com essas coisas de romance”.  

Contagem de corpos virou troféu.  

Ficar vulnerável virou fraqueza.  

Dizer “eu sinto sua falta” virou carência.  

Querer exclusividade virou pressão.  

Querer conversar até de madrugada sobre sonhos bobos virou “muita energia”.

 

Eu não consigo,  

Não consigo achar bonito essa frieza toda.  

Não consigo achar sexy essa blindagem emocional.  

Não consigo achar maduro tratar gente como descartável.

 

Eu ainda acho bonito quando a pessoa lembra que eu gosto de café sem açúcar.  

Ainda acho foda quando alguém manda mensagem só pra dizer “tava pensando em você agora”.  

Ainda derreto quando vejo casal de idoso de mãos dadas na rua, porque eles sobreviveram a todas as modas passageiras e ainda escolheram um ao outro.

 

Mas parece que esse tipo de romantismo hoje em dia é tratado como doença.  

Como se eu fosse um ET perdido no tempo.  

Como se eu tivesse nascido na época errada.

 

E o pior: às vezes eu acho que eles têm razão.  

Que talvez seja mais fácil mesmo não sentir tanto, não esperar tanto, não se entregar tanto.  

Mas aí eu lembro que eu não nasci pra jogar esse jogo.  

Eu nasci pra sentir até doer, pra amar até sobrar pouco de mim, pra olhar nos olhos e falar a verdade mesmo que saia feio.

 

Então eu continuo aqui, romântico incurável, fora de moda, inconveniente, intenso demais pro século 21

Continuo escrevendo textos que ninguém pediu, guardando lembrança de abraço que durou 3 segundos a mais, sonhando com alguém que ainda vai me olhar como se eu fosse o único ser humano no planeta.

 

E se ninguém mais quiser esse tipo de amor…  

tudo bem.  

Eu guardo o meu comigo.  

Porque eu prefiro morrer com o peito cheio de poesia do que viver com o coração vazio só pra parecer “descolado”.

 

Desculpa se eu incomodo.  

Mas é que eu ainda acredito que o amor de verdade não cabe em stories de 24 horas.  

Ele cabe em décadas.  

Em silêncios confortáveis.  

Em “eu volto pra você” dito sem precisar jurar.

 

E eu vou continuar acreditando nisso…  

mesmo que o mundo inteiro me diga que eu tô errado.

 

Tô errado, mas tô inteiro.  

E isso já vale alguma coisa.