Melancolia...

Carta de Quem Te Ama Sem Medida.

Escrevo na mesa da cozinha,
a mesma que range quando encosto o cotovelo.
São 22h17 —
o relógio do micro-ondas sempre adianta dois minutos,
como se tivesse pressa de acabar o dia.

 

Tem um copo com água pela metade
e a marca dos seus dedos ainda mora no vidro
(ou talvez seja só impressão minha
— ando confundindo presença com costume).

 

Eu queria dizer que te amo
mas isso seria grande demais para caber aqui
entre a toalha manchada de café
e o cheiro do sabão que ficou nas minhas mãos.

 

Então eu digo de outro jeito:

eu ainda deixo um espaço na cama
mesmo nas noites frias.
E às vezes viro de lado
como quem procura um calor específico,
aquele que não é febre
nem cobertor.

 

Guardei o bilhete que você escreveu
num papel arrancado do caderno.
Ele ficou dobrado dentro da carteira
até apagar nas dobras,
como se as palavras tivessem aprendido a sussurrar.

 

Não sei explicar
por que seu nome pesa diferente na boca.
É um peso morno —
feito xícara cheia demais,
que a gente segura com cuidado
para não transbordar o que sente
e queimar os dedos.

 

Eu finjo que está tudo no lugar.
Lavo a louça.
Respondo mensagens.
Rio no tempo certo.

 

Mas há um silêncio específico
entre um prato e outro
que me desmonta.

 

É ali
que eu te amo sem medida.
Sem régua, sem defesa,
sem qualquer habilidade elegante.

 

Só assim —
como quem deixa a luz da sala acesa
mesmo sabendo
que ninguém vai voltar hoje.

14 fev 2026 (12:46)