Brunna Keila

Tudo que meus olhos não enxergam

Deus mora nas coisas que os olhos não alcançam.

Ele se esconde no intervalo entre um suspiro e outro,

na pausa do choro que ninguém ouviu,

no silêncio que fica depois que a porta se fecha

e a alma permanece sozinha consigo.

Há dores que não aparecem nos exames.

Há doenças que os médicos aprendem a chamar de incuráveis

porque não cabem nos remédios

nem nas palavras técnicas que tentam organizar o caos.

E há também aquela sombra mansa

que vai ocupando os cômodos da alma

apagando as luzes uma por uma.

Chamam de depressão.

Mas eu penso que é uma noite comprida

que chega antes da hora

e faz o coração esquecer

como era o desenho do sol.

Nessas horas, Deus não grita.

Ele não rasga o céu com trovões.

Ele fica pequeno.

Tão pequeno quanto uma brisa

que toca o rosto de quem já não tem forças para orar.

Tudo que meus olhos não enxergam

talvez seja justamente onde Ele mais trabalha.

No escuro da terra, a semente parece morta.

Mas é ali, longe da vista,

que o milagre aprende a respirar.

Quando o corpo dói,

quando o diagnóstico parece sentença,

quando o travesseiro conhece segredos salgados,

Deus se faz silêncio.

E o silêncio, às vezes, é o colo que não vemos.

A fé não é um sorriso constante.

É uma vela acesa dentro do peito

mesmo quando o vento sopra forte.

Pequena.

Tremendo.

Mas acesa.

Tudo que meus olhos não enxergam

é o cuidado invisível

que me sustenta quando não sinto chão.

É a mão que não vejo

segurando a minha

quando a alma se torna noite.

E se a escuridão insiste,

talvez seja porque o amanhecer

ainda está sendo tecido.

Deus trabalha no invisível.

E no invisível, meu caro

há vida germinando

mesmo quando tudo parece silêncio.