Entre o quanto eu te amo
e o quanto você me ama
existe a mesa da cozinha às sete e vinte,
com duas xícaras que esfriam em velocidades diferentes.
Eu sempre esqueço a minha.
Você sopra a sua como quem protege uma chama pequena.
Entre uma coisa e outra
fica o cheiro do sabonete no travesseiro,
um lado mais fundo que o outro,
como se a noite tivesse escolhido você.
Às vezes eu acordo antes
e observo o peso do seu braço
atravessando minha cintura —
não é um gesto grandioso,
mas tem a firmeza de quem fecha a porta devagar
para não acordar ninguém.
Eu não digo nada.
Só ajeito o lençol,
como se aquilo fosse uma resposta suficiente.
Tem dias em que exagero no sal
só para ouvir você rir
e esticar o braço até o copo d’água.
Você me chama de distraído
como se não soubesse
que eu decoro a forma exata da sua boca
quando diz meu nome baixo.
Entre o quanto eu te amo
e o quanto você me ama
há pequenas falhas de tradução —
mensagens não enviadas,
um silêncio que pesa mais que o corpo,
uma dúvida que encosta na porta
mas não entra.
E ainda assim
quando você encosta a testa na minha
há uma temperatura que se ajusta,
como duas mãos frias encontrando o mesmo bolso.
Não sei medir distâncias.
Só sei que, quando você sai,
a casa muda de som.
E quando volta,
o ar fica do tamanho certo
para respirar.
13 fev 2026 (16:20)