MAISA NALAPE

Depois de mim

Depois de mim,

quem ficou no meu lugar

sem tremer?

 

Quem tocou a tua pele

com a mesma febre,

com a mesma fome de infinito?

 

Diz-me —

houve alguém

que te amasse sem medida,

que te enfrentasse sem medo,

que te elevasse ao trono

quando querias fugir da própria coroa?

 

Eu fiz-te subir ao alto.

Vi o brilho nascer nos teus olhos

como incêndio rasgando a noite.

E agora só vejo cinzas.

 

Irreconhecível.

Mais frio.

Menos chama.

 

Podem tentar repetir o meu nome

nos teus ouvidos,

decorar os meus gestos,

ensaiar a minha entrega —

 

mas intensidade não se copia.

Profundidade não se finge.

Paixão não se aprende.

 

Eu não fui apenas amor.

Fui tempestade.

Fui espelho.

Fui a mulher que te ensinou

o que é ser desejado

sem reservas.

 

E no silêncio que ficou entre nós

arde uma certeza que te persegue:

 

não se substitui

quem deixa

marca de fogo.