Isabella Vitória

MEU INVERNO

O inverno não cessa.
Ele não ameaça partir.
Não há degelo anunciado
nem sol ensaiando retorno.

O vento atravessa as frestas
com a intimidade de quem já mora aqui.
Ele conhece meus silêncios,
sabe onde a madeira range,
onde a saudade faz eco.

Protejo as poucas velas que restaram.
A chama vacila,
Para o lado ela se inclina
E por tão pouco resiste ... por hábito.

Você me traz flores.
Lírios.

Brancos demais.
Quase cruéis.

Eu os seguro
e sinto o peso delicado da morte.
Foram podados cedo demais,
Arrancados de seus destinos 
para enfeitar a minha solidão.


Pergunto-me
se toda beleza exige um sacrifício.


Te ofereço um sorriso 
por disciplina da dor.
Há sofrimentos que aprendem etiqueta,
que se sentam eretos à mesa
e agradecem pelo que os fere.

Não te culpo.

Você é o que eu não sou.
Em você, a primavera não pede licença.
Em mim,
Eu nunca a conheci.

E enquanto o vento insiste,
as velas se consomem em silêncio,
os lírios cedem pétala por pétala
sobre a madeira fria da mesa,
eu compreendo — sem redenção —

que há histórias
que não foram feitas
para descongelar.