O inverno não cessa.
Ele não ameaça partir.
Não há degelo anunciado
nem sol ensaiando retorno.
O vento atravessa as frestas
com a intimidade de quem já mora aqui.
Ele conhece meus silêncios,
sabe onde a madeira range,
onde a saudade faz eco.
Protejo as poucas velas que restaram.
A chama vacila,
Para o lado ela se inclina
E por tão pouco resiste ... por hábito.
Você me traz flores.
Lírios.
Brancos demais.
Quase cruéis.
Eu os seguro
e sinto o peso delicado da morte.
Foram podados cedo demais,
Arrancados de seus destinos
para enfeitar a minha solidão.
Pergunto-me
se toda beleza exige um sacrifício.
Te ofereço um sorriso
por disciplina da dor.
Há sofrimentos que aprendem etiqueta,
que se sentam eretos à mesa
e agradecem pelo que os fere.
Não te culpo.
Você é o que eu não sou.
Em você, a primavera não pede licença.
Em mim,
Eu nunca a conheci.
E enquanto o vento insiste,
as velas se consomem em silêncio,
os lírios cedem pétala por pétala
sobre a madeira fria da mesa,
eu compreendo — sem redenção —
que há histórias
que não foram feitas
para descongelar.