Bem à minha frente,
abre-se o horizonte vasto, indomável
grande demais para caber nos meus olhos.
Ele me atravessa em silêncio
e arranca do peito um suspiro antigo,
como se a própria existência
fosse um milagre acontecendo agora.
Mas acima de mim,
rasgando o azul com suas asas escuras,
um pássaro negro circula o ar
à procura de restos,
de carne esquecida,
de fim.
E sua sombra breve e fria
desmancha, num único pensamento,
a liberdade que eu julgava tocar.
Nem ele,
que beija a margem do céu,
que se entrega ao sopro do vento
e flutua como se fosse dono do infinito,
é livre.
Seu voo não nasce do desejo
Nasce da fome.
Ele voa
mas voa porque algo o chama.
Seu voo não é fuga,
é dever.
Não é sonho,
é ciclo.
E o horizonte
tão vasto diante de mim
talvez seja apenas
a moldura delicada
de uma liberdade
que nunca foi inteira.
E ainda assim,
eu permaneço olhando.
Porque talvez a liberdade
não seja ausência do destino,
mas a maneira como se atravessa ele.
O pássaro não questiona o vento,
não amaldiçoa a fome,
não confronta o céu que o limita.
Ele apenas abre as asas
e rasga o impossível
com o que tem.
Se o pássaro voa por necessidade,
eu caminho por esperança.
Somos iguais:
criaturas movidas por algo
que nos ultrapassa.
Porque mesmo que a liberdade
não seja inteira,
mesmo que venha costurada
a deveres, ciclos e sobrevivências,
há uma escolha silenciosa
em cada gesto.
Voar apesar.
Amar apesar.
Viver apesar.
E nesse “apesar”
talvez more
a forma mais honesta
de liberdade.