Há jardins semeados pelo inevitável,
despertados no mundo parado.
Entre o gesto e o não-gesto
cresceu uma hera silenciosa
que aprendeu a subir sem tocar o chão.
Não me procure no óbvio.
Sou a caligrafia do vento nas ranhuras do destino,
sou o avesso do verso,
sou a água que escreve no ferro
e ainda assim permanece leve.
Há algo que vibra em mim
como sino submerso,
não soa,
mas chama.
É maré que responde à lua
mesmo quando a lua se oculta.
Carrego constelações dobradas na língua,
um alfabeto de brasas e neblina.
Minhas palavras não caminham - orbitam.
Encostam-se umas nas outras
como astros cúmplices
que jamais colidem,
mas alteram para sempre a gravidade.
Sou arquitetura de penumbra e das auroras,
coluna erguida em terreno fértil.
O que em mim parece brisa
é pacto de tempestade contida.
O que parece calma
é cálculo de abismo atravessado com delicadeza.
Há histórias sobre como taças de cristal que jamais tocaram o vinho, mas ainda assim embriagam.
Caminho entre os dias
como quem atravessa um salão de espelhos líquidos:
cada reflexo sugere,
nenhum revela.
E quem ousa ler-me além da superfície
descobre que toda transparência
é apenas outra forma de mistério.
Porque há jardins semeados pelo inevitável
e neles,
mesmo quando ninguém vê,
algo floresce
com a precisão silenciosa
das coisas que estavam destinadas
a nunca serem ditas
e ainda assim
existem.