Amanda S. Moraes

Jardins semeados

Há jardins semeados pelo inevitável,

despertados no mundo parado.

Entre o gesto e o não-gesto

cresceu uma hera silenciosa

que aprendeu a subir sem tocar o chão.

Não me procure no óbvio.

Sou a caligrafia do vento nas ranhuras do destino,

sou o avesso do verso,

sou a água que escreve no ferro

e ainda assim permanece leve.

Há algo que vibra em mim

como sino submerso,

não soa,

mas chama.

É maré que responde à lua

mesmo quando a lua se oculta.

Carrego constelações dobradas na língua,

um alfabeto de brasas e neblina.

Minhas palavras não caminham - orbitam.

Encostam-se umas nas outras

como astros cúmplices

que jamais colidem,

mas alteram para sempre a gravidade.

Sou arquitetura de penumbra e das auroras,

coluna erguida em terreno fértil.

O que em mim parece brisa

é pacto de tempestade contida.

O que parece calma

é cálculo de abismo atravessado com delicadeza.

Há histórias sobre como taças de cristal que jamais tocaram o vinho, mas ainda assim embriagam.

Caminho entre os dias

como quem atravessa um salão de espelhos líquidos:

cada reflexo sugere,

nenhum revela.

E quem ousa ler-me além da superfície

descobre que toda transparência

é apenas outra forma de mistério.

Porque há jardins semeados pelo inevitável 

e neles,

mesmo quando ninguém vê,

algo floresce

com a precisão silenciosa

das coisas que estavam destinadas

a nunca serem ditas

e ainda assim

existem.