BH, se apresentou pra mim
Como nunca antes
Em transe no trânsito
Eu que sempre enfrentava
a sua impassível lentidão
agora experimentava
algo estranhamente diferente
Quando tirei os olhos
da imensa fila de carros
Como se quisesse sobreviver ao inferno
Olhei para o lado
E a vi, no exato momento
em que ela olhava pra mim de volta
Um homem empapelado
Me sorriu da calçada
Abrindo um portal
Para outra vida
Depois de acenar ao mendigo
Vi através dele
\"Rabiscos\" na parede
Letras que nao me diziam nada
Mas que haveria de ter algum significado
Talvez fruto de uma crítica juvenil
Riscos incompreensíveis
Pelos quais,
Enxerguei melhor o homem
Fruto da mesma ignorância minha.
Uma mulher atravessou
Em meio aos carros
Com uma pressa medonha
enquanto arrastava uma criança
Quase lhe arrancando o braço
No ônibus parado a minha direita
Uma adolescente imersa
Dentro da matrix do smartphone
A serra do curral
Me vê de longe
Eu pisco pra ela
E penso, como é linda
A mãe da beleza horizontal
Mesmo quando a pobreza
a contradiz
Ela é bonita
Assim vista de dentro
BH se mostra em raio X
Eu me vi na terceira pessoa
Junto a cada coisa que via
Meu sangue corria nas ruas
As veias entupidas da cidade
e tudo parecia um gigantesco infarto fulminante
Espalhando o caos
em todas as direções
Pobre coração de BH.
De repente, uma buzina dramática e impulsiva
Me avisa do carro
Cinquenta metros do meu
Estou separado agora
apenas pelo vazio a frente
e uma multidão de buzinas enfurecidas atrás
Tiro a cara pra fora da janela
E lanço no ar um grito, libertário
Para me devolver a realidade:
- Vai pra puta que o pariu !!!!!!!!!
Antonio Olívio