Antonio Olivio

BH EM TRANSE

 

BH, se apresentou pra mim

Como nunca antes

Em transe no trânsito 

Eu que sempre enfrentava

a sua impassível lentidão 

agora experimentava 

algo estranhamente diferente 

Quando tirei os olhos 

da imensa fila de carros 

Como se quisesse sobreviver ao inferno

Olhei para o lado 

E a vi, no exato momento

em que ela olhava pra mim de volta

Um homem empapelado 

Me sorriu da calçada 

Abrindo um portal 

Para outra vida 

Depois de acenar ao mendigo

Vi através dele 

\"Rabiscos\" na parede 

Letras que nao me diziam nada

Mas que haveria de ter algum significado 

Talvez fruto de uma crítica juvenil 

Riscos incompreensíveis 

Pelos quais,

Enxerguei melhor o homem

Fruto da mesma ignorância minha.

Uma mulher atravessou 

Em meio aos carros 

Com uma pressa medonha

enquanto arrastava uma criança 

Quase lhe arrancando o braço 

No ônibus parado a minha direita 

Uma adolescente imersa 

Dentro da matrix do smartphone 

A serra do curral 

Me vê de longe 

Eu pisco pra ela 

E penso, como é linda 

A mãe da beleza horizontal 

Mesmo quando a pobreza

a contradiz

Ela é bonita 

Assim vista de dentro 

BH se mostra em raio X

Eu me vi na terceira pessoa

Junto a cada coisa que via 

Meu sangue corria nas ruas

As veias entupidas da cidade 

e tudo parecia um gigantesco infarto fulminante 

Espalhando o caos 

em todas as direções 

Pobre coração de BH.

De repente, uma buzina dramática e impulsiva 

Me avisa do carro 

Cinquenta metros do meu

 Estou separado agora 

apenas pelo vazio a frente 

e uma multidão de buzinas enfurecidas atrás 

Tiro a cara pra fora da janela 

E lanço no ar um grito, libertário 

Para me devolver a realidade:

- Vai pra puta que o pariu !!!!!!!!!

 

 

Antonio Olívio