Versos Discretos

Teatro do desejo

Ato I: O Prelúdio do Silêncio

A luz se esvai, restando apenas o contorno,

Onde o linho encontra a pele em suave atrito.

Despoja-te do mundo, do ruído e do adorno,

E ouve, no peito, o compasso de um ritmo aflito.

Fecha os olhos; que a visão seja apenas interna,

Mapeando o mapa de um território que é só teu,

Onde a vontade se acende, sutil e eterna,

Sob o véu da penumbra que o dia te deu.

 

Ato II: A Exploração do Relevo

Desliza a palma, leve como um sopro de vento,

Pela curva do colo, subindo à nuca sedenta.

Sente o arrepio, esse elétrico e mudo advento,

Que a ponta dos dedos, em círculos, alimenta.

Não há pressa no reino onde o tato é soberano;

Contorna os seios como quem desenha o horizonte,

Provocando o ápice, o relevo quase profano,

Bebendo o desejo direto da própria fonte.

 

Ato III: O Mergulho no Abismo Doce

A mão desce agora, em busca do centro do mundo,

Onde a umidade floresce como orvalho em fresta.

Um toque de seda, um movimento vago e profundo,

Iniciando a música que para o corpo é festa.

Encontra o botão de coral, o epicentro do fogo,

E com a destreza de quem dedilha uma harpa rara,

Entrega-te ao ritmo desse solitário jogo,

Onde a alma se despe e a carne não se compara.

 

Ato IV: A Apoteose do Êxtase

O fôlego escapa, o arco do dorso se altera,

As ondas se sucedem, em marés de puro carmim.

É o desabrochar violento de uma primavera,

Um grito contido que ecoa dentro de si, enfim.

Deixa que o espasmo te leve, que a mente se perca,

No ápice branco onde o tempo decide parar.

Que nenhuma palavra ou pudor te cerque,

Pois és, neste instante, o próprio verbo amar.