Samuel D\'ânis

Crônicas Póstumas

Forjei a nova espada, recitei o nome herdado,
cruzei velhos valores, o dogma consagrado.
Aldeões, reis e bobos murmuravam a mesma era:
uma coisa sem medida, dita horrenda, dita fera.
Cantigas a descreviam — infernal ou redentora,
e assim desperto ao mito que o mundo ainda adora.

Tomo a trilha: é estreita, escura, cheira a lenda morta.
Voltarei vitorioso — é isso o que importa.
Não sinto medo: sou cavaleiro, fiz juramento em pé,
afiando machados, tensionando a fé.
Mas algo muda ao longe, entre ramos verdejantes:
vi além da encosta — e o frio se fez constante.
Agora que contemplei, sei: não posso mais desver.

Quando a sombra cessou, não houve urro ou sinal,
nem chifres, nem garras, nem ódio infernal.
Ali algo apenas era — não réu, nem divindade,
não condenado ao féu, tampouco à eternidade.
O ar já não pesava, não havia gesto ou ação:
a fera não se moveu — e mudou-me a fundação.

Nunca senti isto antes. Que encontro foi este?
Onde está o demônio que o mundo me prometeste?
Devo matá-lo? Com quê? Se nada me enfrenta?
Após tocar o real, já não busco ferramenta.
Sem ódio, sem chama, sem causa ou anteparo,
parto de mim mesmo — estranho e raro.

No retorno pela trilha, densa e repetida,
reluto o que ouvi, o que fiz da vida.
Não devia ter ido, mesmo ileso, intacto:
encontrei algo pior que a morte ou o pacto —
deparei-me com o eterno, neutro e sem face,
o abismo inimaginável que ainda me invade.

Chego aos portões em festa, bis, louvor e canção.
Inventarão façanhas — eu lhes dou a versão.
O rei concede honras, a corte gira em dança,
o bobo ri, a princesa me lança esperança.
Ironia perfeita: chamam isso de glória,
mas a anedonia escreve outra história.

No aposento dourado, retiro a armadura,
lavo o sangue invisível da farsa segura.
Deito-me. Chega de olhar, mas o dia não cessa.
Não esqueço. Não durmo. Algo ainda atravessa.
Da fera ficou apenas o sussuro tardio:
— E agora, cavaleiro, o que farás com o vazio?