Ao expor minha convicção em sentimentos desesperançosos, imunes ao efeito puro da concretude que humanizaria demais meus reais sentidos, reconheço minha desconfiança em meus próprios pensamentos num tipo singular de lucidez que não deveria ser sustentada por muito tempo. A mente humana foi feita e habituada a permanecer consolidada na alternância entre esquecimento e atenção, como quem respira profundamente. Para alguns homens infortunados como eu, no entanto, inexiste a capacidade de interligar o ritmo e a cadência — de certa forma melódica — de seus pensamentos. Estes mesmos homens não sobrevivem no convívio principal da natureza humana; ainda que perdurem, como ideias perdidas, flutuantes em um vasto espaço escuro, repleto de eternas e delirantes memórias e poucas reminiscências. E como todo ser que anseia pelo esquecimento ou a morte, são estas memórias que me enlaçam no interstício instável entre o excesso da consciência e o desvanecer do ser.