Amanda S. Moraes

Camada de cinismo global

Chamam de progresso

essa febre elétrica que atravessa cabos submarinos

enquanto dedos deslizam por telas

como quem reza em alta velocidade.

Jogos que viciam, promessas de riqueza e levam um pouco de nossas vidas. 

Algoritmos decidem quem merece existir na vitrine do mundo,

quem será amplificado,

quem será silenciado sob camadas de ruído.

Vendemos dados como quem oferta incenso,

aceitamos termos que ninguém lê

e chamamos de liberdade

o que é apenas curadoria invisível.

Enquanto isso, palanques repetem

“Deus”, “tradição”, “família”,

palavras polidas como prataria antiga

que escondem rachaduras no fundo do armário.

Perguntar qual Deus
é quase sempre o início do desconforto.

A moral vira espetáculo.

A fé, slogan.

A pátria, figurino.

E nos bastidores,

emendas escorrem como óleo espesso,

orçamentos evaporam,

salários se ajustam sempre para cima - nunca para quem acorda às cinco.

A floresta aprende o idioma da motosserra.

O rio memoriza o gosto do mercúrio.

O litoral negocia seu horizonte em barris.

Chamam de desenvolvimento

o que deixa crateras na pele da terra.

Chamam de oportunidade

o que devora o futuro.

No entanto, o povo, essa entidade útil quando convém - bate ponto, paga juros,

e aprende a sorrir em parcelas.

compartilha memes,

discute política no almoço,

tem medo do boleto,

reza por estabilidade,

mas não deixa de sonhar.

Entre uma enchente e outra,

entre um escândalo e outro,

entre uma atualização e outra,

vive.

Há quem acredite que o autoritarismo

chega marchando com botas audíveis.

Às vezes ele chega sorrindo,

prometendo proteção.

Fanatismo não nasce do nada:

ele germina onde a educação foi negada,

onde o pensamento crítico foi trocado por grito,

onde o medo é adubado diariamente.

Não é ignorância pura - é cansaço manipulado.

 

E enquanto discutimos bandeiras,

os contratos são assinados longe da praça.

 

Enquanto brigamos por símbolos,

direitos evaporam discretamente.

Mas ainda assim -

e isso é o que mais me intriga:

há gente estudando,

plantando,

ensinando crianças a perguntar “por quê?”.

Há quem recuse a mentira confortável

e escolha a dúvida fértil.

Há quem compreenda que fascismo não se combate com fúria cega,

mas com alfabetização profunda,

com memória histórica,

com ética cotidiana.

 

Ganância sempre existiu.

O novo é sua escala industrial.

Hipocrisia sempre existiu.

O novo é sua transmissão em alta definição.

Ainda assim,

sob essa camada de cinismo global,

há uma força silenciosa

que não viraliza,

mas sustenta.

 

Talvez o século não precise de heróis,

mas de leitores atentos.

Talvez a revolução mais subversiva

seja ensinar alguém a interpretar

antes de compartilhar.

Se o mundo parece à beira do colapso,

é porque agora vemos as fissuras em tempo real.

Mas ver é o primeiro passo para não repetir.

E se há algo que ainda pode nos salvar

não é um líder,

nem um algoritmo,

nem uma profecia impressa em capa de revista -

é a decisão íntima

de não terceirizar o próprio discernimento.