Ivo Neto

Olhos que não são meus

O meu eu, meu verdadeiro eu, eu não conheço.

Esse dia foi melancólico.
Não sorri

Só pensei

Só chorei.

 

Não consigo achar um motivo que me torne um eu.

Existem tantos motivos em mim que poderiam, em outra pessoa que é nada, torná-la um alguém para o mundo.

Eu sou alguém.

Mas não me sou.

 

Não sei se compreende. Ninguém nunca compreendeu.

Meu psicólogo perguntava o porquê de eu não me gostar.

Eu tinha uma lista de coisas que ninguém nunca nem notou.

Mas a sentença de viver uma vida sem amor próprio foi dada por um juiz rigoroso: eu.

 

Sinto-me um fora da lei. Ninguém é perfeito, mas eu tenho que ser para sanar outras danações de mim.

Isso é de mim.

É o que me torna eu.

 

Nunca me amei e talvez continue assim por muito tempo.

Não consigo dormir pensando em como poderia ser melhor, mais bonito, mais amigo, mais irmão, mais filho, mais namorado.

Pena que pensar não diminui a necessidade de agir.

Não consigo agir por pensar demais.

E se eu não pensar e só for?

Após ir, eu ficaria pensando no arrependimento por ter ido sem pensar.

 

Penso mais no que os outros vão achar de mim do que eles mesmos vão pensar sobre mim.

 

Sou um bom filho?

Apesar das mentiras, sim.

Sou um bom amigo?

Isso eu sou.

Sou um bom irmão?

Poderia ser melhor.

Eu sou o meu melhor eu?

Estou longe disso.

 

Só sozinho em um quarto me proporcionei ver o quanto eu penso em tudo e o quanto sou punido por isso.

“Estou com calor, ligo o ar, a conta de luz da minha irmã vai vir cara, ela está um pouco desprovida de dinheiro, desligo o ar, estou com calor, ligo o ventilador, o calor não passa e ainda estou gastando energia.”

 

Queria que o ventilador cumprisse a proposta relativa do seu nome:

ventilar a dor, ventilar a dor para bem longe de mim.

A dor de me ser machuca.

Não consigo explicar essa dor. Mesmo quando tentei, nem o profissional me entendeu.

 

Eu sei que há dores muito piores: a fome, a sede, doença severa.

Mas a que me dói mesmo é o amor.

Não o amor por outra pessoa, já que este eu só conquistarei no dia em que me amar.

Mas sim, o meu amor por mim, que só existiu enquanto eu não pensava em pensar.

 

Queria uma solução rápida para tudo.

Já perdi muito tempo de vida sem viver de verdade, me importando com o que os outros vão pensar de mim antes de eu fazer algo e ser feliz.

 

Não consigo mais olhar no fundo dos meus olhos no espelho, porque os olhos refletidos não são meus; os meus não são azuis.

Não consigo mais ajeitar meu cabelo no espelho, porque o cabelo refletido pelo espelho não é meu; o meu não é loiro e liso.

Não consigo mais olhar minha barriga no espelho, porque a barriga refletida não é minha; a minha não é definida .

 

Faz tempo que não me vejo.

Minto: todo dia eu me vejo. Os reflexos de que falei são expectativas minhas de como eu deveria ser para me amar.

 

Ninguém sabe me consolar. Eu não deixo. Meu cérebro aparentemente colocou uma imagem real minha para aprisionar minhas qualidades, pois ele sabe que eu não teria coragem de me enfrentar para procurá-las.

Às vezes me pergunto se eu tenho alguma. Às vezes a resposta já vem na minha cabeça e é sempre um “não” ou um “talvez”, nunca vem uma qualidade logo de cara. Ajudaria bastante.

 

Me amar iria me mudar para melhor, muito melhor, eu sei.

Mas há um Grand Canyon entre o eu e o amor próprio, quase impossível de atravessar.

Digo quase por nunca ter tentado, mas sim por ter imaginado como seria e como seria ter conseguido.

 

Me amar seria o primeiro passo para poder me encontrar.

Me amar seria incrível.

Me amar…

talvez um dia eu possa pensar em tentar.

 

Agora meu olho me vê, não o eu de fora, o eu de dentro, o eu que ninguém chega, o eu que ninguém viu, o eu que sabia que existia mas nunca fui apresentado.

Queria ter conhecido antes; iria poupar muito sofrimento.

 

Ainda não me amo, mas percebo que pelo menos amor pela minha alma viva eu tenho.

Apesar de negar meu corpo, eu escolheria minha alma entre tantas outras. Foi a qual  foi dada a oportunidade de viver, mesmo eu não conseguindo viver por inteiro.

Percebo que pelo menos ela encontrou o amor que tem em mim e agora ela faz ele percorrer pelo meu interior.

Espero um dia conseguir torná-lo real e o externalizar.