NAMORO E CELULAR
Conquistar uma namorada hoje em dia não é tão fácil quanto no meu tempo; a evolução tecnológica estabeleceu o seu império. O mundo virtual tornou-se tão privativo que criou barreiras intransponíveis. A superexposição ao digital culmina no \"phubbing,\" gerando relacionamentos precários. À parte isso, o \"politicamente correto\" faz com que uma honesta intenção de paquera seja, por vezes, interpretada como assédio, afugentando quem busca um sincero vínculo amoroso. A solene ausência das pessoas perante o celular dispensa intrusos, pois a Meta Platforms as mantém absortas em seus aplicativos. No passado, tive problemas de comunicação com parceiras que pareciam antecipar essa era:— pará que haja diálogo, é mister que existam um ouvinte atento e um retorno. Algumas das minhas antigas companheiras não eram boas ouvintes, ou interlocutoras assemelhando-se aos casais de hoje, com celular de per si, onde cada um se isola em seu aparelho.
#1. Característica genética.
Convivi com uma parceira com quem cheguei a viajar 50 km sem que ela enunciasse um único pensamento. Enquanto eu me desvelava em diversos temas, ela parecia entretida com um invisível Kindle nas mãos. Com o correr dos dias por falta de retorno e comunicação, com meu isolamento cheguei a necessitar de antidepressivo.
Sua família compartilhava essa tendência de pouca conversa a ponto do traço monossilábico. Certa vez, num restaurante, jantávamos com seu ex-patrão e a esposa; e ocorreu que um homem juntou-se a nós. Após um longo período, ele se despediu.
Eu o observava, já em certa distância, sem nenhum propósito, senão o de um olhar automático. Minha parceira perguntou-me:
— Sabe quem é ele?
— Não.
— É o meu pai... Hoje, tal distanciamento seria \"desculpável\" se o celular estivesse distraindo-lhe a atenção.
#2. Descompasso de diálogo. Anos mais tarde, tive uma namorada linda, cuja beleza causava buzinadas pela sua aparência, na avenida.
Eu a levava a restaurantes e bares elegantes e tentava administrar conversas que fossem do seu interesse, mas tudo terminava como estivesse num solilóquio.
Veio o término do relacionamento tendo comigo um dos motivos essa falta de interesse num bate-papo.Teria de o ser inevitável, pois um relacionamento não sobrevive apenas de contemplacso estética. Se estivéssemos na época dos celulares haveria uma justificativa e estaria entre nós– tudo nos conformes.
#3. Conexão amorosa.
E tive uma amante por alguns anos. Convivemos na mais perfeita harmonia. Embora sem grandes diálogos. Sem assuntos pertinentes alongávamos o dia passeando em bares, ou restaurantes até altas horas da noite. E às vezes varávamos as 24 horas, numa discoteca, sem percalços e sem discórdia.
Simplesmente tínhamos a companhia de ambos. Eu, com a fragrância do tabaco de cachimbo e ela com a esvoaçante fumaça do cigarro. Nunca se prestaria a ter um celular e ficar ausente, como ela não me permitiria ausência semelhante. Bom mesmo era o nosso convívio de uma fidelidade transcendental, de quiosque em quiosque, com vista para rios ou lagos e música ao vivo. E o nosso pôr do sol... O celular jamais permitiria tal comunhão entre ardentes amantes #4. Curiosidade empática: Mas, além, cheguei a conhecer uma garota que, no nosso primeiro encontro, adorava ouvir as minhas histórias. Estávamos num restaurante. Ela, concentrada no enredo, de repente clamava: \"Meu Deus!\" Logo em seguida, outro \"Meu Deus!\" Eu, entusiasmado, fantasiava sua imaginação e vinha outro \"Meu Deus!\" Um cliente prestimoso perguntou se ela precisava de ajuda médica. Então eu lhe alertei: \"Fale baixo, não há tanta necessidade do \'Meu Deus.\' Com essa companhia, o celular não teria vez. Via-se que tinha o dom de ouvir e sensibilizar-se pelo assunto.
Era portadora de uma patologia na coluna, tanto que, para embarcar no carro, parecia travada por uma espondilite qualquer: em vez de curvar-se para frente, fazia-o ao contrário, estendendo o tronco para trás. Condicionada pela patologia articular, apresentava um caminhar exótico. (Às vezes, um defeito físico deslumbra uma composição de beleza). Firme, esbelta, fui atraído ao vê-la justo pelo feitio do caminhar. No entanto, uma amiga ao meu lado, ao ver meus olhos seguindo a moça, comentou: \"Linda moça de caminhado feio.\" Disfarcei meu interesse e pensei: \"Coitada, não entende de beleza feminina na sua mais sutil estética.\"
E aqui entrei num dilema quando prometi visitar uma namorada noutra cidade com o intuito de casar. A dinâmica do caminhar daquela garota e sua disposição para o diálogo atraíam-me sem explicação imediata. Se eu a visse mais uma vez, tinha certeza de que não iria atrás do casamento. Estava numa encruzilhada sentimental. A sua companhia empática envolveu-me a ponto de um profundo sentimento de amor à primeira vista, mas autêntico.
Na viagem, pensei: se eu a encontrar, não vou ficar por aqui mesmo e fim de papo. Cheguei ao seu endereço. A casa estava de janela e porta abertas, e o brilho das luzes trazia um silêncio de desamparo doméstico. Bati palmas, gritei seu nome. De novo. Esse silêncio de amor decepcionante me atingiu com estoicismo. ...O que será, será... Segui em frente pela rodovia. Se ela tivesse atendido aos meus gritos, não estaria hoje tão feliz com a minha atual esposa.
Muito depois a vi no Banco Bradesco. Entretinha-se com um celular. Por um deslize de concentração, ela me viu.
— Você se lembra de mim? — perguntou-me.
Encontrava-se com tatuagens no pescoço e nos braços... e aquele celular. Alguém desfrutava da sua dinâmica exótica e não aproveitasse, talvez, a pureza das suas exclamações de ouvinte. Imaginei que aquela tela de celular roubara-lhe a empatia e o intercâmbio exclamativo.
Afinal, a tecnologia pode alienar... Mas a escolha de como usá-la ainda é humana, para que a manutenção de um namoro não seja aviltada pelo milagre do indispensável celular — Graças a Deus.
Tangará da Serra, 01/02/2026