Ele vê.
Não tropeça na névoa.
Reconhece os contornos,
lê os sinais,
entende o jogo antes do primeiro lance.
Nada lhe escapa.
Sabe onde pisa,
sabe o custo de cada gesto,
antecipa desfechos
com precisão quase fria.
Mas não move.
A realidade se oferece
como ferramenta,
e ele a segura
sem apertar.
Compreende as opções,
pesa cenários,
organiza argumentos —
e chama de prudência
o adiamento constante.
Não é medo bruto,
é cálculo sem decisão.
Não é cegueira,
é visão suspensa.
Responde quando provocado,
ajusta quando pressionado,
acompanha o fluxo
com lucidez suficiente
para nunca se perder
e jamais se comprometer.
Tem potência intacta,
mas prefere o intervalo.
Escolher exige assumir,
e assumir rompe o equilíbrio
que ele chama de paz.
Assim, o campo avança.
Não por força,
apenas por ausência.
E quando a decisão enfim acontece,
não é dele.
É do tempo,
do desgaste,
da soma de fatores externos
que ele observou
sem interferir.
Permanece lúcido até o fim,
e por isso mesmo,
inteiramente responsável
por nunca ter escolhido.