Viviane.93

Sexta feira

Todo dia ele repetia a rotina:

acordar, tomar banho, trabalhar.

Beijava o rosto cansado da esposa,

abençoava filhos que ainda dormiam

e saía antes do sol.

 

Uma hora esperando o metrô.

Todo dia a mesma demora.

O relógio corria mais que o trem,

e a vida cabia no intervalo

entre um apito e outro.

 

Entre corpos exaustos e mochilas pesadas,

sonhava em silêncio,

Porque sonhar alto custa caro.

 

Qual será a faculdade da Maria?

Pedro tem talento, sabe desenhar.

Que futuro cabe em dois salários mínimos?

Tudo que é do pai é deles,

Meu cansaço é por eles

 

Chegou ao trabalho com o sorriso treinado:

— E o Mengão ontem, hein, Marcos?

— Hoje liberam mais cedo, Silva?

— Bora marcar a breja, Pereira?

Nomes repetidos, piadas recicladas,

dias iguais.

 

Cumpriu as obrigações da função

como há vinte anos cumpria.

O corpo sabia antes da cabeça:

movimento, pausa, repetição.

Produzir sem lembrar por quê.

 

Saiu dando adeus aos colegas:

— Até amanhã, rapaziada!

Graças a Deus, vou pra casa.

O descanso é sempre depois.

 

Falta pouco pra aposentar.

Um sítio, um pouco de silêncio,

tempo para ajudar os filhos a não errarem

o mesmo caminho.

Tudo vai se encaminhar!

 

 

O metrô se aproxima.

Empurra, aperta, acelera.

Afasta, eu preciso passar.

Ninguém olha.

Alguém me ajuda.

Ninguém para.

Não consigo respirar.

 

João, mais um trabalhador,

morreu numa estação de trem.

Sem foto, sem nome, sem memória nacional.

A multidão

seguiu, pontual,

voltando para suas casas.

 

É sexta feira.