Há uma dor que não sangra
e, ainda assim, lateja.
Não tem ferimento visível,
não tem data,
não tem testemunha.
É como sentir falta
de algo que nunca coube no mundo,
mas insistiu em existir dentro.
Sou feita de acúmulos invisíveis,
códigos herdados,
ecos de vozes antigas,
gestos repetidos antes de mim.
Carrego no corpo
o que meus ancestrais não puderam dizer,
no sangue,
o roteiro de sobrevivência que aprenderam sem escolha.
Fui moldada por rotinas obrigatórias,
o despertar, o prato, a briga, o silêncio e o escuro.
Por histórias luminosas que me ensinaram
que havia outros universos possíveis,
onde heroínas salvavam planetas,
a água tinha voz
e o bem ainda valia a luta.
Revi essas imagens tantas vezes
até que se tornaram refúgio
e também promessa.
Houve um lugar
onde a palavra precisava pedir permissão
e o afeto obedecia ao clima do dia.
Ali, o corpo aprendeu vigilância
e a mente descobriu passagem secreta.
Quando tudo era interditado,
restava o céu.
E nele, eu me estendia.
Foi assim que aprendi
a viajar sem sair,
a existir em camadas,
a sobreviver sonhando acordada.
Algumas fissuras nunca fecharam.
Elas definem limites.
Hoje, reconheço desalinho
antes que vire ferida.
Não por dureza,
mas por exaustão antiga.
Depois de suportar escassez por tanto tempo,
meu coração e confiança passou a exigir inteireza.
Ainda pulsa machucado,
mas já não aceita migalhas como destino.
Vivo com intensidade
porque fui feita de excesso sensível.
De percepção afiada,
de entrega franca,
de vontade elétrica.
Não sei amar em baixa voltagem,
não sei estar pela metade,
não sei fingir quando o corpo diz não.
Essa é minha natureza:
incandescente,
atenta,
verdadeira até quando dói.
Se tudo é campo,
se tudo responde ao olhar que sustenta,
então escolho criar imagens de permanência.
Me vejo rindo com o peito aberto,
oferecendo abraços sem medo,
sendo atravessada por encontros justos,
estradas inesperadas,
paisagens que confirmam que
a vida ainda pode ser generosa.
E se essa dor invisível me acompanha,
ela não me define.
É apenas a prova
de que houve profundidade demais
para caber em certas mãos.
Mesmos das mãos que você escolheu nascer, crescer e evoluir.
Mesmo sangrando em silêncio,
escolho imaginar luz.
Porque sobreviver já foi necessário,
agora,
eu quero viver.