Talvez falte
eu chegar antes do café esfriar,
ou aprender a ouvir
sem responder nada,
como quem segura a porta
para o outro passar.
Guardo seu nome
no bolso pequeno do dia,
entre as chaves e o troco —
não pesa,
mas faz barulho quando ando rápido demais.
Há noites em que te escrevo
e apago.
Não por medo de você,
mas de mim:
do excesso,
do gesto maior que o instante.
Cuido de você
sem anúncio —
arrumo a cadeira que você não percebe,
calo a frase que poderia ferir,
aprendo seus silêncios
como quem decora um caminho de volta.
Quando você ri,
o mundo fica simples:
uma janela aberta,
um prato ainda quente,
o dia aceitando ficar.
Mas há esse resto em mim,
esse espaço que não alcança,
como um braço curto demais
para um abraço inteiro.
Não sei se é falta de tempo,
ou de coragem,
ou se amor também precisa
de caber nos dois.
Se eu te perdesse,
não faria barulho.
Sentaria no mesmo lugar,
olharia o mesmo céu,
e só a ausência
saberia onde doeu.
Então te amo assim:
com cuidado,
com sede contida,
com a alegria pequena
de quem fica.
E me pergunto —
baixo,
quase como desculpa:
o que ainda falta em mim
para caber no seu amor?
3 fev 2026 (12:10)