Não sou o que me deram
nem o que aprendi a repetir.
Uso nomes, papéis, rotinas,
mas nenhum deles me contém.
Caminho entre estruturas
sem ajoelhar para nenhuma delas.
Reconheço o peso dos símbolos,
mas não confundo peso com verdade.
Sinto medo.
Sinto vazio.
Não os corrijo com promessas.
Repito gestos porque funcionam,
não porque acredito neles.
Executo o dia
sem me dissolver no hábito.
Não busco sentido eterno.
Busco clareza suficiente
para não me perder
naquilo que opera sobre mim.
Não pertenço, mas transito.
Não obedeço, mas compreendo.
Sou feito de escolhas conscientes
e de renúncias assumidas.
O mundo não me deve resposta.
Eu também não o devo fé.
Sigo lúcido,
mesmo quando dói,
busco ser inteiro
comigo mesmo.