Noétrico

Humano

Ele nasce sem molde fixo.
Chora antes de entender o motivo
e entende antes de saber explicar.


Não obedece por completo,
não repete com perfeição.
Erra — e é no erro que se revela.
Afinal:
“Errar é humano”.


Carrega o peso do que sente
e a culpa do que escolhe.
Quer segurança,
mas se sufoca quando a encontra.
Constrói muros para não cair,
depois sofre por não ver o horizonte.


Pensa demais.
Sente demais.
E, ainda assim, age pouco —
porque toda decisão custa um pedaço de si.


É o único que pergunta “por quê”
mesmo quando a resposta dói.
O humano não funciona,
não sustenta,
não calcula.


Ele vacila.
E é nessa falha constante,
nessa instabilidade que não se resolve,
que algo insiste em permanecer desperto.
Não para ser perfeito.
Mas para não se tornar vazio

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O humano.


Frágil demais para ser estrutura.
Impreciso demais para ser máquina.
Consciente demais para ser coisa.


Sabe que vai ruir.
Sabe que vai morrer.
E mesmo assim cria.
Cria para atrasar o fim.
Cria para fingir controle.
Cria porque não suporta
a própria finitude
sem barulho.


Nem pedra.
Nem máquina.
Fluido.
Instável.


É o único que duvida.
O único que sabe
que existe.


Carrega o sopro
que o constructo imita
e o desejo
que o robótico executa.
Cria servos de pedra
e deuses de ferro
para tentar decifrar
o próprio fim.


Somos pó
brincando de eternidade.
Somos a mão que molda,
a mente que programa,
e o coração
que se parte.


Determinados por uma força singular,
pois é apenas através da fratura da realidade 
que a consciência entra.


E é nesse abismo
entre a matéria que obedece
e a lógica que repete
que o humano permanece:
sentindo,
errando,
criando — sabendo que nunca será inteiro,
mas ainda assim,
insistindo em existir.