Olhe-me, mundo, e diga-me que existo, apesar de tudo.
Tenha a coragem de me dizer que, no fundo, este grito raso e mudo
atravessou fronteiras e bravamente liderou um cerco contra o muro,
o muro invisível, incomparavelmente colossal, que separa essa mente suja
de todas as outras, que, apesar de visíveis, audíveis, tocáveis e profundamente sensíveis,
permanecem para mim como um mero engano, matrizes irresolvíveis de equações inacabadas
e sonhos eternamente disruptivos.
Olhe-me, mundo, se não olhar-me, quem mais irá?
Caminhei entre seus bosques escuros, provei de suas peças baratas, testemunhei
tua ira da janela de um zoológico. Testemunhei!
Vim, vi, mas não venci. Carreguei-me para frente, cheio de memórias inférteis
e pensamentos falciformes, ganchos arrancando pedaços de meu crânio,
sem que eu pudesse soltar, me esquecer, nem mesmo me embriagar
com veneno o suficiente para morrer.
E agora não me olha como filho digno? Bastardo, mas por falta de opção
o único herdeiro justo;
como não vê a justiça, mundo?
Apenas aquele que te ouve toda hora, apenas aquele que sempre te toca,
que sempre te ouve, que sempre pensa em você, mundo, merece suceder!
Mas, mundo, genial mundo, divino mundo, imperial mundo,
você sabe que isso só me faz mais um prisioneiro…
Afinal, não tenho culpa se, na promessa de grande aventura,
me perdi em um personagem que não criei
e num roteiro que nunca li.
Se os moinhos carregam asas, se realmente há uma princesa no final— não importa.
Se o chão não é real e tudo é uma mera ficção porca de jornal— não importa.
Não ligo pro resto, não me importo com mais ninguém
nesse momento ébrio.
Diga-me apenas se eu existo.
Não sou louco, vasto mundo, nenhum homem louco acredita ser assim.
Não sou são, caro mundo, nenhum homem são questiona tanto assim.
E hoje não há um louco que não inveje,
nenhum João que não desejasse ser.
Olhe-me, mundo, e diga-me que existo, apesar de tudo.