Amanda S. Moraes

Hiperassociação mental

Estou sentada onde o corpo fica,

mas a mente não assinou presença.

Os olhos parecem beber o horizonte,

enquanto por dentro galáxias se atravessam

em disparada silenciosa,

sem pedir licença ao tempo.

 

Quem passa vê contemplação imóvel:

mar respirando, ondas ensaiando retornos.

Por dentro, porém, invento travessias,

pulo continentes num piscar de pensamento,

sou muitas versões em simultâneo,

todas nascidas do mesmo instante.

 

O céu acende um arco de cores improváveis,

o sol se despede em combustão delicada.

Minha cabeça corre descalça por ideias,

faz morada em imagens que não existiam

antes da luz tocar a água

e bagunçar meus sentidos.

 

Estou aqui, dizem os pés na areia.

Estou longe, responde algo sem endereço.

Essa fenda entre o agora e o devaneio

não dói, não cura, não explica:

é só o lugar onde a inspiração

me atravessa sem forma.

 

Talvez dissociar seja isso:

o mundo externo servindo de gatilho

para universos que nascem e morrem

no intervalo de uma onda.

E eu, quieta por fora,

mas criando super novas por dentro.