Luare

O estranho que habita

O Estranho que Habita

 

É estranho ser silêncio e tempestade,  

um rio calmo que por dentro arde.  

É estranho quando o mundo gira em festa  

e você é o ponto fixo, a corda que protesta.  

 

É estranho o vento, cúmplice discreto,  

guardando segredos que nunca foram ditos.  

É estranho querer tanto um abraço  

e ao mesmo tempo erguer muros infinitos.  

 

É estranho ver a lua em pleno dia,  

um brilho deslocado, uma poesia tardia.  

É estranho sorrir sem voz,  

ser presença que não discute, apenas se constrói.  

É estranho ter palavras afiadas,  

mas deixá-las presas, amarradas.  

É estranho o poder escorrendo pelos dedos,  

como areia que não respeita segredos.  

 

É estranho tornar-se sombra,  

um desconhecido na memória de quem te fez luz. 

É estranho perceber que virou um estranho para aquele que tenho deu a mão. 

Estranho, sim, mas talvez necessário:  

pois só o estranho nos mostra quem somos,  

quando já não sabemos mais quem fomos.