Charles Araújo

DOCE VENENO

DOCE VENENO

 

 

 

 

\"Ama-me como se eu fosse teu último erro,e eu te darei o inferno mais doce que tu possa ter provado\"

 

 

“Musa das chamas, o amor que não salva,

mas condena, de línguas e garras afiadas…

Fala do belo garoto, doce armadilha de carne,

e da garota má que dele fez altar profano.”

 

Veio ele: belo, simpático, gentil,

como vinho de boa safra em cálice de prata.

Mas logo calou-se, ao conhecê-la:

a deusa dos becos e vícios ocultos,

garota má que lambe a sombra dos homens,

e sorri ao ouvir os gritos de quem suplica mais.

 

Corrompeu-lhe os instintos.

E ele, ainda com voz trêmula, alertou:

— Garotas más não herdam o paraíso.

 

Ela riu. Um riso de Lúcifer em vestido curto:

— Quem disse que quero paraíso algum,

quando tenho o inferno ardendo entre minhas coxas

e o prazer de ser por ti possuída?

 

garota má…

Que feitiço tu lançaste?

Deixa-me nu de juízo,

à mercê de teus jogos,

de tuas promessas sujas sussurradas ao pé da língua.

 

— Diga-me, és minha?

 

— Sou tua garota má.

Só tua.

Ardo como Popeia entre as lavas,

grito como a virgem sacrificada a Dioniso.

Devora-me com a fúria de Cérbero,

não poupes os dentes.

 

E o garoto, agora fera, e

que outrora tremia à luz,

tornou-se sombra.

Tornou-se caçador.

 

— Doce menina do abismo…

Teu corpo é brinquedo de desejo profano.

Teu cheiro, altar do pecado.

Vem.

Sente a escuridão

 

— Estou aqui.

Usa-me.

Abusa.

Despeja em mim tuas malícias escondidas.

Não me perdoe, eu não quero perdão.

Sou tua garota má.

Tua oferenda.

 

Borbulham-me as veias com as fontes do Tártaro.

O sangue ferve,

os dedos deslizam como serpentes.

Quero tua carne, macia e entregue.

Quero rasgar esse céu com minhas garras

e lançar-te ao leito das predições,

pois foste tu quem despertou meus demônios.

 

— Vem, depressa.

Possui-me com fúria,

como se o mundo acabasse em meus quadris.

Deflora-me nas masmorras de Hades,

amarra-me aos pilares da tua luxúria.

 

— Queima-me.

Corrói-me.

Condena-me.

Sou tua escrava, tua bruxa, tua oferenda.

 

Pois garotas más 

essas, meu senhor 

não herdam o paraíso.

Mas reinam sobre o inferno que há em ti.

 

 

Entre lençóis amarrotados e sussurros roucos,

o garoto, agora fera, já não tem nome.

É só instinto.

É só desejo.

É só maldição cumprida em carne viva.

 

Ela, rainha da noite,

rende-se à própria crueldade doce.

Joga-o no abismo das coxas abertas.

Afoga-o no suor das palavras proibidas.

 

— Dize-me, menina má,

esse veneno que escorre da tua boca,

quantos já matou?

 

— Nenhum.

Apenas os libertei da virtude.

E todos, todos voltaram pedindo mais.

 

E ele… voltou.

Mesmo sabendo que cada gemido dela

é um novo pecado carimbado nos ossos.

 

Ela cavalga como bruxa em sabá.

Ele reza em vão entre os seios dela.

E no fim… sorriem.

Pois caíram juntos.

E já não querem céu algum.

 

 

Ele a chama de maldição.

Ela o chama de propriedade.

 

Agora, não há súplica,

há ordem.

 

— Deita.

Abre.

Entrega.

 

E ele obedece.

Com o prazer de quem é escravo

do corpo que o amaldiçoou.

 

Ela escreve com unhas nas costas dele

todas as histórias que jamais ousou contar.

E ele, marcado,

aceita cada letra como dogma.

 

— Te pertenço, garota má.

 

— Eu sei.

Agora cala… e geme.

 

 

Velas acesas.

Perfume de pecado no ar.

Ela nua, coroada com espinhos e batom escuro.

 

Ele ajoelha.

Não por fé.

Mas por fome.

 

Ela o unge com saliva,

o incensa com gemidos.

Faz do corpo dele altar da sua luxúria.

 

— Louva-me, meu servo.

Honra essa carne que te arruína.

 

Ele beija-lhe os pés.

Beija-lhe os lábios.

E se perde entre os seios dela

como quem encontra o sentido da vida.

 

Pois o amor deles não é puro.

É rito.

É profano.

É sagrado em sua própria heresia.

 

 

Ele era luz.

Agora, é sombra.

 

Tudo o que antes temia,

agora deseja.

 

Ela não o salvou.

Ela o revelou.

 

E ele, novo, em carne e febre,

rosna por ela nos cantos da noite.

Como fera que reconhece o cio

de sua dona impiedosa.

 

— Garota má…

Tu me fizeste monstro.

Agora te devoro como oferenda eterna.

 

E ela goza.

Porque ser devorada por ele

é sua única oração legítima.

 

 

Vieram as noites longas.

Vieram as manhãs sem culpa.

 

Sem orações.

Sem promessas.

Sem pedidos de perdão.

 

Apenas o corpo dela deitado sobre o dele,

como oferenda satisfeita,

com o cheiro da guerra ainda escorrendo das coxas.

 

Não havia mais palavras.

Nem sussurros.

Nem ordens.

 

Porque tudo já tinha sido dito,

com dentes, língua, garras e gemidos.

 

Ela olhava para ele com olhos de fim de mundo.

E ele, exausto, sorria como quem aceita a própria sentença.

 

— Somos isso? — ele perguntou, já sabendo a resposta.

 

Ela acendeu um cigarro e olhou para o teto.

 

— Somos.

O que resta depois da última oração.

O que sobra depois do último gozo.

O que os deuses evitam nomear.

 

Ele não respondeu.

Tocou a cintura dela como quem agradece,

não por amor 

mas por ter sido condenado por algo que valeu a pena.

 

Lá fora, o mundo seguia.

Carros, preces, relógios.

 

Mas ali, naquele quarto abafado de pecado e entrega,

o tempo estava suspenso.

 

O infern

o já havia sido instalado.

Não havia mais retorno.

 

A redenção perdera o sentido.

A eternidade também.

 

Restava apenas o silêncio…

aquele que vem depois do prazer,

quando até os deuses, cansados de julgar,

se deitam… e adormecem.