DOCE VENENO
\"Ama-me como se eu fosse teu último erro,e eu te darei o inferno mais doce que tu possa ter provado\"
“Musa das chamas, o amor que não salva,
mas condena, de línguas e garras afiadas…
Fala do belo garoto, doce armadilha de carne,
e da garota má que dele fez altar profano.”
Veio ele: belo, simpático, gentil,
como vinho de boa safra em cálice de prata.
Mas logo calou-se, ao conhecê-la:
a deusa dos becos e vícios ocultos,
garota má que lambe a sombra dos homens,
e sorri ao ouvir os gritos de quem suplica mais.
Corrompeu-lhe os instintos.
E ele, ainda com voz trêmula, alertou:
— Garotas más não herdam o paraíso.
Ela riu. Um riso de Lúcifer em vestido curto:
— Quem disse que quero paraíso algum,
quando tenho o inferno ardendo entre minhas coxas
e o prazer de ser por ti possuída?
garota má…
Que feitiço tu lançaste?
Deixa-me nu de juízo,
à mercê de teus jogos,
de tuas promessas sujas sussurradas ao pé da língua.
— Diga-me, és minha?
— Sou tua garota má.
Só tua.
Ardo como Popeia entre as lavas,
grito como a virgem sacrificada a Dioniso.
Devora-me com a fúria de Cérbero,
não poupes os dentes.
E o garoto, agora fera, e
que outrora tremia à luz,
tornou-se sombra.
Tornou-se caçador.
— Doce menina do abismo…
Teu corpo é brinquedo de desejo profano.
Teu cheiro, altar do pecado.
Vem.
Sente a escuridão
— Estou aqui.
Usa-me.
Abusa.
Despeja em mim tuas malícias escondidas.
Não me perdoe, eu não quero perdão.
Sou tua garota má.
Tua oferenda.
Borbulham-me as veias com as fontes do Tártaro.
O sangue ferve,
os dedos deslizam como serpentes.
Quero tua carne, macia e entregue.
Quero rasgar esse céu com minhas garras
e lançar-te ao leito das predições,
pois foste tu quem despertou meus demônios.
— Vem, depressa.
Possui-me com fúria,
como se o mundo acabasse em meus quadris.
Deflora-me nas masmorras de Hades,
amarra-me aos pilares da tua luxúria.
— Queima-me.
Corrói-me.
Condena-me.
Sou tua escrava, tua bruxa, tua oferenda.
Pois garotas más
essas, meu senhor
não herdam o paraíso.
Mas reinam sobre o inferno que há em ti.
Entre lençóis amarrotados e sussurros roucos,
o garoto, agora fera, já não tem nome.
É só instinto.
É só desejo.
É só maldição cumprida em carne viva.
Ela, rainha da noite,
rende-se à própria crueldade doce.
Joga-o no abismo das coxas abertas.
Afoga-o no suor das palavras proibidas.
— Dize-me, menina má,
esse veneno que escorre da tua boca,
quantos já matou?
— Nenhum.
Apenas os libertei da virtude.
E todos, todos voltaram pedindo mais.
E ele… voltou.
Mesmo sabendo que cada gemido dela
é um novo pecado carimbado nos ossos.
Ela cavalga como bruxa em sabá.
Ele reza em vão entre os seios dela.
E no fim… sorriem.
Pois caíram juntos.
E já não querem céu algum.
Ele a chama de maldição.
Ela o chama de propriedade.
Agora, não há súplica,
há ordem.
— Deita.
Abre.
Entrega.
E ele obedece.
Com o prazer de quem é escravo
do corpo que o amaldiçoou.
Ela escreve com unhas nas costas dele
todas as histórias que jamais ousou contar.
E ele, marcado,
aceita cada letra como dogma.
— Te pertenço, garota má.
— Eu sei.
Agora cala… e geme.
Velas acesas.
Perfume de pecado no ar.
Ela nua, coroada com espinhos e batom escuro.
Ele ajoelha.
Não por fé.
Mas por fome.
Ela o unge com saliva,
o incensa com gemidos.
Faz do corpo dele altar da sua luxúria.
— Louva-me, meu servo.
Honra essa carne que te arruína.
Ele beija-lhe os pés.
Beija-lhe os lábios.
E se perde entre os seios dela
como quem encontra o sentido da vida.
Pois o amor deles não é puro.
É rito.
É profano.
É sagrado em sua própria heresia.
Ele era luz.
Agora, é sombra.
Tudo o que antes temia,
agora deseja.
Ela não o salvou.
Ela o revelou.
E ele, novo, em carne e febre,
rosna por ela nos cantos da noite.
Como fera que reconhece o cio
de sua dona impiedosa.
— Garota má…
Tu me fizeste monstro.
Agora te devoro como oferenda eterna.
E ela goza.
Porque ser devorada por ele
é sua única oração legítima.
Vieram as noites longas.
Vieram as manhãs sem culpa.
Sem orações.
Sem promessas.
Sem pedidos de perdão.
Apenas o corpo dela deitado sobre o dele,
como oferenda satisfeita,
com o cheiro da guerra ainda escorrendo das coxas.
Não havia mais palavras.
Nem sussurros.
Nem ordens.
Porque tudo já tinha sido dito,
com dentes, língua, garras e gemidos.
Ela olhava para ele com olhos de fim de mundo.
E ele, exausto, sorria como quem aceita a própria sentença.
— Somos isso? — ele perguntou, já sabendo a resposta.
Ela acendeu um cigarro e olhou para o teto.
— Somos.
O que resta depois da última oração.
O que sobra depois do último gozo.
O que os deuses evitam nomear.
Ele não respondeu.
Tocou a cintura dela como quem agradece,
não por amor
mas por ter sido condenado por algo que valeu a pena.
Lá fora, o mundo seguia.
Carros, preces, relógios.
Mas ali, naquele quarto abafado de pecado e entrega,
o tempo estava suspenso.
O infern
o já havia sido instalado.
Não havia mais retorno.
A redenção perdera o sentido.
A eternidade também.
Restava apenas o silêncio…
aquele que vem depois do prazer,
quando até os deuses, cansados de julgar,
se deitam… e adormecem.