Em pequenas palavras
eu tento organizar o caos,
como quem arruma gavetas antigas
sabendo que algumas memórias ainda cortam os dedos.
Escrevo pequeno
porque o que sinto é grande demais.
Se eu abrir tudo de uma vez,
o peito transborda,
e eu aprendi a sobreviver
contendo enchentes por dentro.
Em pequenas palavras
eu falo de ausências que ficaram,
de promessas que não aprenderam a ficar,
de amores que passaram
deixando móveis fora do lugar.
Há dias em que o silêncio pesa toneladas,
então escrevo uma linha,
só uma,
para lembrar que ainda respiro.
Que mesmo cansada,
a alma insiste em ficar.
Em pequenas palavras
eu confesso medos que não digo em voz alta,
fragilidades que o mundo não perdoa,
e esperanças tímidas
que ainda batem na porta do amanhã.
Descobri que nem tudo precisa ser explicado.
Algumas dores só querem ser reconhecidas.
Algumas saudades só pedem
um lugar seguro para existir.
Em pequenas palavras
eu me reconstruo aos poucos,
como quem cola os próprios pedaços
com cuidado para não se ferir de novo.
Porque às vezes, Meu caro
não é o discurso que salva —
é a frase curta,
o verso simples,
o quase nada
que mantém o coração inteiro.