Jérsia Alexandra Castelo Castanheta

Alquimia Da Alma

És o sol que esmalta o céu em dourado e violeta,  

Na tela dos dias, és pincel e aquarela,  

Transfiguras o cinza em aura completa,

 Meu cais oculto, minha centelha bela.  

 

Em teus passos, baila a brisa rendida,  

Que doma tormentas e adormece o ar.  

No fulgor do teu olhar, jaz a vida,  

Um amor que se recusa a cessar.  

 

Ainda que ignores a luz que emanas,  

És chama viva no abismo sombrio,  

Estrela que cruza minhas madrugadas insanas,  

Farol silente no meu mar vazio.  

 

Nos acordes do teu silêncio encantado,  

Habita um segredo de rara harmonia,  

És verso velado, poema encantado,  

Que embriaga minha alma em doce alquimia.  

 

Minha ira, que antes rugia em tempestade,  

Em teu gesto se deita e repousa,  

Contigo, a existência é nova verdade,  

Onde até o caos encontra coisa formosa.  

 

Não por ti — que desconheces este altar,  

Nem por nós — que sequer nos sabemos,  

Mas por tudo que teu ser sabe evocar,  

E o que em silêncio aos céus oferecemos.  

 

És luz que rasga a névoa e me redime,  

Tinges o mundo em matizes de esplendor,  

Na tua essência, meu destino imprime  

A vertigem sagrada do amor.  

 

Em outras vidas, buscar-te-ia sem fim,  

Por entre ruínas, constelações e ventura,  

Só para, ao menos, tocar-te enfim  

Num instante de eterna ternura.  

 

E se nunca souberes do que arde em mim,  

Do altar secreto onde teu nome mora,  

Ainda assim, guardarei até o fim  

Esse lume que me devora — e me ancora.