Marujo

 Rotina ( Ou o ato de ir a lugar nenhum, confortavelmente)



O sol tem o sorriso de uma criança idiota que não sabe de nada além da felicidade
e se apresenta com uma pontualidade de tamanha educação que chega a ser cruel.
Eu queria que fosse noite para sempre, e quando acordasse, não me lembraria se
hoje já é amanhã ou se ontem sequer existiu, além do gosto de vômito regurgitado
e da vontade desesperada, mas inteiramente intermitente, de fazer algo da minha vida.

 A lua desce e sobe como uma puta experiente, sem memória de qualquer glamour,
somente a reverberação mecânica de uma música cuja letra já perdeu o sentido.
Eu queria que fosse dia para sempre, e quando fosse dormir, me limparia de tudo
que me tocou, e poderia viver pulando por bueiros, me jogando aos gafanhotos,
baratas, lobos; sendo repartido igualmente por tudo e todos, sem me perder no final.


 Eu caio, uma paródia de Ícaro, alguém que nunca saiu do chão e ainda consegue

cair. Eu levanto, indo a lugar nenhum.