Francisco Ribeiro

Apartamento

Abriste a porta e eu entrei.

Não me esperavas, bem sei…

Mas eu estava ali.

 

Na tua boca,

as palavras gaguejaram

pelas emoções que te afloraram.

Estavas linda…

E eu sorri.

 

Falei baixinho e confiante:

uma palavra, um instante,

e soube que esta noite

seria a tal.

 

Sobre as ancas flutuando,

a camisa esvoaçando

num bailado sexual,

a feminilidade te acentuava –

discreta e descarada,

serena e imoral.

 

Lá fora,

batia a chuva na janela,

e o vento, soprando nela,

por entre frestas uivava…

 

Cá dentro,

Silêncio.

 

Despi-te a blusa.

estavas tu meio confusa,

da verdade do amor meu…

 

Mas, em teus seios, os meus dedos

acordaram os segredos

que a razão te adormeceu.

 

Quando mais alto falaram

as caricias, que em tremores, te soltaram,

os desejos já não contidos,

 

da pele  que se arrepiou

quando a respiração ofegou

entre profundos gemidos.

 

E alongaram-se meus dedos

no descer desses rochedos –

teus seios inchados.

 

Deslizando por teu ventre

até aflorarem docemente

teu segredo…

mais bem guardado.

 

Não sei se “uis!” se “ais!”

eram sentidos e reais,

por tão fundo de ti saídos…

Cavos, mudos, murmurados,

roucos sons apaixonados,

esses abafados gemidos.

 

Na janela, a chuva batia,

e o vento uivava em melodia,

a inveja de um momento…

 

Por apenas sonho não vivido,

só no silêncio construído,

no vazio deste…

apartamento.