A morte não levou tudo.
Levou o corpo,
mas deixou espalhado pela casa
o eco da voz,
o lugar vazio na mesa,
e esse peso no peito
que ninguém chama pelo nome certo.
A alma cansada partiu devagar,
como quem já chorou demais em vida
e agora só quer descanso.
Não houve pressa,
não houve drama —
só um suspiro longo
e o silêncio aprendendo a existir.
Para quem foi, talvez tenha sido leve.
Para quem fica,
é um rasgo cotidiano.
A gente aprende a respirar pela metade,
a sorrir com culpa,
a viver com a sensação
de que algo essencial
foi arrancado sem aviso.
O silêncio não é vazio.
Ele grita.
Ele ocupa os quartos,
os domingos,
as madrugadas em que o coração
procura alguém que não volta.
É um silêncio eterno,
porque não termina —
a gente é que aprende a conviver com ele.
Dizem que a morte é descanso.
Mas ninguém fala do cansaço
de quem continua aqui,
carregando lembranças
como quem segura água nas mãos
e mesmo assim tenta não derramar.
Talvez a vida após a morte
seja transparente,
como Rubem dizia:
sem dor, sem peso, sem medo.
Mas a vida após a morte
de quem fica
é aprender a amar
alguém que agora mora
no invisível.
E todos os dias
a gente morre um pouco também —
não de verdade,
mas o suficiente
para entender
que o luto é o preço
de ter amado profundamente.