Brunna Keila

A vida após a morte

A morte não levou tudo.

Levou o corpo,

mas deixou espalhado pela casa

o eco da voz,

o lugar vazio na mesa,

e esse peso no peito

que ninguém chama pelo nome certo.

A alma cansada partiu devagar,

como quem já chorou demais em vida

e agora só quer descanso.

Não houve pressa,

não houve drama —

só um suspiro longo

e o silêncio aprendendo a existir.

Para quem foi, talvez tenha sido leve.

Para quem fica,

é um rasgo cotidiano.

A gente aprende a respirar pela metade,

a sorrir com culpa,

a viver com a sensação

de que algo essencial

foi arrancado sem aviso.

O silêncio não é vazio.

Ele grita.

Ele ocupa os quartos,

os domingos,

as madrugadas em que o coração

procura alguém que não volta.

É um silêncio eterno,

porque não termina —

a gente é que aprende a conviver com ele.

Dizem que a morte é descanso.

Mas ninguém fala do cansaço

de quem continua aqui,

carregando lembranças

como quem segura água nas mãos

e mesmo assim tenta não derramar.

Talvez a vida após a morte

seja transparente,

como Rubem dizia:

sem dor, sem peso, sem medo.

Mas a vida após a morte

de quem fica

é aprender a amar

alguém que agora mora

no invisível.

E todos os dias

a gente morre um pouco também —

não de verdade,

mas o suficiente

para entender

que o luto é o preço

de ter amado profundamente.