Luana Santahelena

Manual Doméstico para Levar a Vida Menos a Sério

Eu já reclamei da segunda-feira

como quem acusa um crime antigo,

do céu que resolve chorar sem me avisar,

do vizinho que confunde volume com felicidade,

do espelho — esse crítico sem diploma —

e até de frases alheias

que nunca me pediram leitura.

 

Depois cansei.

Não por maturidade plena

(que isso ainda estou parcelando),

mas por perceber que a vida

não presta atenção nas minhas queixas:

ela continua passando,

educadamente surda.

 

Decidi, então, um acordo simples comigo:

guardar energia só para o que me faz bem.

O resto?

Deixo passar como propaganda de intervalo,

dessas que a gente vê

mas não compra.

 

Há coisas que ficam —

o afeto que insiste,

a memória que não desbota,

o riso que aparece fora de hora.

E há outras que são visita breve,

barulho emprestado,

incômodo provisório

que a gente leva sério demais.

 

Viver, descobri,

não é organizar o mundo,

é escolher onde pousar o coração.

Ignorar também é um gesto de sabedoria,

ainda que ninguém aplauda.

 

Então sigo:

menos queixa, mais cuidado,

menos peso, mais presença.

Aproveito a vida como posso —

com dúvidas no bolso,

um humor discreto nos lábios

e a leve suspeita

de que nem tudo precisa de resposta

para fazer sentido.