Eu já reclamei da segunda-feira
como quem acusa um crime antigo,
do céu que resolve chorar sem me avisar,
do vizinho que confunde volume com felicidade,
do espelho — esse crítico sem diploma —
e até de frases alheias
que nunca me pediram leitura.
Depois cansei.
Não por maturidade plena
(que isso ainda estou parcelando),
mas por perceber que a vida
não presta atenção nas minhas queixas:
ela continua passando,
educadamente surda.
Decidi, então, um acordo simples comigo:
guardar energia só para o que me faz bem.
O resto?
Deixo passar como propaganda de intervalo,
dessas que a gente vê
mas não compra.
Há coisas que ficam —
o afeto que insiste,
a memória que não desbota,
o riso que aparece fora de hora.
E há outras que são visita breve,
barulho emprestado,
incômodo provisório
que a gente leva sério demais.
Viver, descobri,
não é organizar o mundo,
é escolher onde pousar o coração.
Ignorar também é um gesto de sabedoria,
ainda que ninguém aplauda.
Então sigo:
menos queixa, mais cuidado,
menos peso, mais presença.
Aproveito a vida como posso —
com dúvidas no bolso,
um humor discreto nos lábios
e a leve suspeita
de que nem tudo precisa de resposta
para fazer sentido.