Well Calcagno

No jardim da entropia

 

...”Houve um dia em que subi esta rua

 pensando alegremente no futuro.

Pois Deus dá licença que o que não existe

 seja fortemente iluminado.

Hoje, descendo esta rua,

 nem no passado penso alegremente.”...

 Álvaro de Campos

 

 

 

Num dia qualquer

Num lugar qualquer

Dum tempo qualquer

Que não cria nada

E nada modifica

Ao contrário só existe

Porque tudo que move muda

Sendo apenas uma forma

De contar a variabilidade

Da vida.

 

Nesse dia ao abrir os olhos

Encontrei de pronto o Álvaro

De campos que julgam

Não existirem no espaço-tempo,

Dizem que existiu apenas

No aparelho psíquico defeituoso

De um poeta que viveu além deste mar.

 

Disse-me coisas sobre esse tempo

Onde passado, presente e futuro

Se encontram num único momento,

Onde um jovem poeta viajando em seu centro

Pode enfim encontrar com seu eu do futuro,

Talvez tão vivo quanto o leão a correr

Atrás de uma presa na savana

Ou decrépito pelos impropérios

Desse moinho de vento que chamamos vida.

Fiquei boquiaberto com tamanha destreza

Deste homem-ideia perceber com clareza

A ilusão mais profunda que existe.

 

Passeei pela estrada das células,

Para entender o mais profundo do ser

Sinapses vibrações difusores ATP

Estímulos respostas emaranhamento

Esse é o princípio do eu

O início do comportamento.

 

No fim deste dia

Vi um bigode em perfil,

Era Nietzsche dançando com Dionísio

Vibrando ao som da música

Que ninguém mais escutava,

Ali no fim da estrada

Me lembrou do eterno retorno,

Onde tudo que ocorreu,

Eclode de novo

E de novo

E de novo

Exatamente como sucedeu.

Rangi os dentes

Feito um cachorro louco,

Mas pouco depois amanheceu.

 

E o tempo? Nada mais que

 uma ampulheta quebrada

 no deserto dos dias.