Amanda S. Moraes

Terra prometida

Chamaram de destino,

outros disseram miragem,

houve quem a visse escrita

em tábuas, estrelas, cicatrizes.

 

A promessa nunca foi o chão.

Foi o deslocamento.

 

Marcharam com nomes sagrados na boca,

bandeiras, tambores, códigos secretos,

alguns empunhando fé,

outros fome,

outros somente cansaço.

 

Cada povo desenhou esse lugar

com a tinta que tinha:

para uns, um vale fértil;

para outros, descanso do medo;

para muitos, apenas o direito

de existir sem pedir licença.

 

Guerras nasceram de mapas

traçados por mãos tremendo de desejo.

Amores também.

Porque onde há espera,

há choque.

 

A terra dita eterna

foi templo, trincheira, útero, exílio.

Foi roubada, defendida, idolatrada,

abandonada como quem larga um deus

quando ele não responde.

 

Mas escuta:

nenhuma promessa sobrevive

se não atravessa o corpo.

 

Talvez o pacto verdadeiro

nunca tenha sido um território,

mas o instante raro

em que alguém encontra abrigo

no olhar do outro.

 

Talvez seja isso que buscamos

desde o início dos tempos:

um lugar onde a alma

não precise se armar,

onde o nome seja dito sem medo,

onde a travessia finalmente

faça sentido.

 

E quando isso acontece -

mesmo que por um segundo-

qualquer ser reconhece.

Porque ali,

sem aviso,

a promessa se cumpre.