Não importa se o tempo nos transforma,
Nem se a senda curva e nos aparta.
O que verdadeiramente nos conforma
É o sentir que a memória resguarda.
Seja flor do campo ou artificiosa,
Um traço, um bilhete, um olhar singelo...
Se brotou de gesto terno, virtuoso,
É dádiva que permanece belo.
Não pesa o valor que embala o afeto,
Tampouco a magnitude do ofertado —
Mas o amor sincero e discreto,
E o recado que o gesto tem deixado.
Ainda que o contato se esvaia,
E cada qual siga seu caminho,
Que o bem plantado não se desfaça,
Nem o puro amor vire só espinho.
Pois há vínculos que fogem à razão,
Mas enraízam-se no íntimo profundo.
E, mesmo consumidos pela ilusão,
Florescem eternos no silêncio do mundo.