Jérsia Alexandra Castelo Castanheta

O Bem Plantado

Não importa se o tempo nos transforma,  

Nem se a senda curva e nos aparta.  

O que verdadeiramente nos conforma  

É o sentir que a memória resguarda.

 

Seja flor do campo ou artificiosa,  

Um traço, um bilhete, um olhar singelo...  

Se brotou de gesto terno, virtuoso,  

É dádiva que permanece belo.

 

Não pesa o valor que embala o afeto,  

Tampouco a magnitude do ofertado —  

Mas o amor sincero e discreto,  

E o recado que o gesto tem deixado.

 

Ainda que o contato se esvaia,  

E cada qual siga seu caminho,  

Que o bem plantado não se desfaça,  

Nem o puro amor vire só espinho.

 

Pois há vínculos que fogem à razão,  

Mas enraízam-se no íntimo profundo.  

E, mesmo consumidos pela ilusão,  

Florescem eternos no silêncio do mundo.