Um dia me perguntaram cadê a menina que eu era antes.
Eu me calei — pessoas sem voz não ocupam lugar de fala.
Talvez ela não tenha ido embora.
Talvez só tenha aprendido cedo demais que o mundo não é um quintal seguro, mas um campo onde a gente cai antes de aprender a correr.
A vida me ensinou pelo avesso. Enquanto outras meninas colecionavam planos, eu colecionava exames, consultas, salas brancas e palavras difíceis demais para um corpo tão novo. Meu sangue nunca foi apenas sangue — era também aviso, limite, cuidado constante. Aprendi que viver, para mim, exigia atenção, paciência e uma coragem silenciosa que ninguém aplaude.
Muitas coisas não deram certo. Pessoas ficaram pelo caminho. Sonhos tiveram que esperar sentados na beira da estrada. E não porque faltou vontade, mas porque às vezes o corpo pede pausa quando a alma quer voo. Há derrotas que não são fracasso — são sobrevivência.
Fiquei mais quieta, sim. Não por fraqueza, mas porque a dor prolongada ensina economia de palavras. Quem convive com a própria fragilidade aprende a falar só o essencial. O resto vira oração, pensamento, carta nunca enviada.
Ainda assim, algo em mim resistiu. Como semente teimosa que cresce na rachadura do concreto. Mesmo cansada, mesmo doendo, mesmo sem garantias. Porque viver, no fundo, nunca foi sobre não cair — foi sobre continuar escolhendo ficar.
Hoje, não sou a menina de antes. Sou outra.
Uma que entende que o silêncio também fala.
Que a fé não elimina a dor, mas dá sentido a ela.
E que ter voz não é gritar — é permanecer.
Houve um dia em que o amor foi embora. Não fez barulho, não bateu a porta — apenas saiu, como quem acredita que voltar não será necessário. E quando ele partiu, levou junto partes minhas que eu ainda estava aprendendo a nomear. Não foi só a ausência de alguém; foi a ausência de mim em mim.
Passei a me procurar nos lugares onde antes havia certeza. Descobri que perder um amor é também perder um espelho: a gente olha e já não se reconhece. Ainda assim, fiquei. Com as mãos vazias, é verdade, mas com algo intacto — a capacidade de continuar existindo mesmo quando o coração desaprende o caminho de casa.