Poesia Abandonada

O Gigante de um MilĂ­metro

Lá se vai o passo firme, decidido, Rumo ao trabalho, ao encontro ou ao nada, Quando, Entra o mudo penetra da jornada.

Não pede licença, não faz alarde, Acha um vácuo entre o couro e o calcanhar. E antes que a manhã se faça tarde, Ele começa, insistente, a caminhar.

Um grão de areia, átomo de deserto, Que decidiu virar montanha no meu pé. Se sinto à esquerda, ele foge pro lado certo, Um místico que testa a minha fé.

É uma pontada fina, um quase-nada, Que transforma o executivo em saltimbanco. Parar no meio fio, na calçada, E apoiar o peso todo em qualquer banco.

Sacode o tênis, bate o solado no chão, Faz-se a mágica, a busca, o ritual... Mas o grão, mestre da camuflagem e da ilusão, Esconde-se na costura, o gênio do mal.

Oh, pequeno herói de silício e poeira, Que prova que a dor é questão de perspectiva: Pois nada atrapalha mais a vida inteira Do que uma pedra minúscula, porém... viva.