Amanda S. Moraes

Gingado antigo

 

Eu não nasci agora.

Apenas retornei.

 

Carrego nos ossos a poeira de constelações antigas,

fui sílaba antes da língua,

fui pulso antes do tempo.

No princípio, eu era clara,

não por ingenuidade,

mas por inteireza.

 

Quando me feriram,

não foi o corpo que sangrou primeiro,

foi o espanto.

E eu mergulhei onde poucos ousam:

nas sombras que sabem conjurar.

Ali aprendi nomes que não se escrevem,

acendi fogueiras com o que me restava

e chamei isso de sobrevivência.

 

Passei eras no intervalo.

Nem céu, nem chão.

O limbo é um lugar onde a alma aprende a esperar

sem perder o fogo.

 

Quando fui resgatada,

aceitei o pacto:

retornar quantas vezes fosse preciso

pelo bem do planeta.

 

Já alimentei bocas famintas

com as próprias mãos cansadas.

Já pari futuros

em corpos que não eram meus.

Já fui abrigo,

fui silêncio,

fui exemplo moldado para caber

em expectativas estreitas.

 

Vesti aventais em campos de guerra,

limpei feridas enquanto o mundo desmoronava,

morri cedo por ideias grandes demais

para épocas pequenas.

 

Redimi-me vivendo.

Redimi-me servindo.

Redimi-me caindo e levantando

com o mesmo coração aberto.

 

Nesta vida,

vim sem algemas invisíveis.

Não me dobro a dogmas,

não peço permissão a tronos,

não negocio minha essência com medo.

 

Sou filha da terra viva,

irmã das águas profundas,

aliada do vento que muda tudo

sem pedir desculpa.

 

Minha missão é guardar o que respira:

florestas, bichos, mares,

e também gente —

mesmo quando a gente esquece como ser humano.

 

Sim, muitos confundiram minha ternura

com disponibilidade.

Minha criatividade com recurso explorável.

Meu cuidado com obrigação eterna.

Missão com oportunidade de negócio.

 

Mas quem nasceu para construir mundos

não endurece,

aprende limites que também são sagrados.

 

Há um gingado antigo no meu passo,

uma malemolência que vem da sobrevivência alegre,

do riso que não se rende,

do corpo que conhece prazer

como forma de oração.

 

Meus olhos não pedem licença:

atravessam.

Reconhecem.

Despertam.

 

Sou deusa não porque mando,

mas porque sustento.

Não porque sou perfeita,

mas porque continuo.

 

Trago no ventre as eras que vivi

e nas mãos o agora pulsando.

 

E se o mundo tentar me conter,

que saiba:

 

já fui cinza,

já fui chama,

já fui noite sem nome.

 

Hoje sou raiz e horizonte.

 

Livre.

Indomável.

Em plena lembrança de quem sempre fui.