Antes de te ter,
eu já te amava em excesso.
Você morava nas minhas ideias
como quem mora num lugar sagrado.
Era falta —
e por isso, infinito.
Eu te construía mais bonito na ausência,
mais interessante no silêncio,
mais perfeito na distância.
Eu era toda desejo.
Toda espera.
Toda imaginação.
Te querer me aquecia.
Me dava propósito.
Me fazia sentir viva.
Mas quando você chegou,
quando virou presença,
quando coube nos meus dias…
algo em mim esfriou.
E essa é a parte que mais dói admitir.
Não foi você que diminuiu.
Foi o que eu sentia.
O mistério morreu na rotina.
O extraordinário aprendeu meus horários.
A sua voz, que antes arrepiava,
virou som comum na casa.
E eu comecei a sentir uma culpa silenciosa,
porque você continuava o mesmo…
e eu já não era.
Te ter
me tirou a fome de você.
E eu fingia que era cansaço,
que era fase,
que era problema do dia a dia.
Mas, no fundo,
era só a verdade que eu não queria encarar:
eu gostava mais de te querer
do que de te possuir.
A falta te fazia arte.
A posse te fez paisagem.
E ninguém tem culpa
quando a paisagem deixa de ser novidade.
Hoje eu entendo, com uma tristeza madura,
que o problema nunca foi você.
Foi essa minha natureza inquieta, quase cruel,
de amar mais o que imagina
do que o que vive.
De precisar da ausência para sentir intensidade.
De confundir ansiedade com amor.
Porque o desejo arde na distância,
mas o amor verdadeiro é calmo.
E eu ainda não sabia amar o que é calmo.
O desejo descansa quando chega.
E, quando descansa…
às vezes, eu deixo morrer.