A dama nasceu aprendendo a ouvir. O mundo sempre falou alto demais para ela. Diziam o que sentir, o que esperar, o que calar. Cresceu elegante no silêncio, como quem carrega porcelana por dentro: bonita, frágil, nunca tocada sem cuidado. Seu silêncio não era vazio — era defesa. Quem nunca teve voz aprende cedo que falar dói.
O vagabundo, ao contrário, falava com os olhos cansados e com os gestos tortos. Não sabia usar palavras bonitas, nem promessas bem passadas. Vinha da rua, do erro, da queda. Tinha voz demais, mas ninguém o escutava. Falava para sobreviver, não para ser entendido.
Quando se encontraram, não foi amor à primeira vista — foi reconhecimento.
Ele viu nela um silêncio que gritava.
Ela viu nele um barulho que pedia descanso.
A dama não ensinou o vagabundo a ser correto.
O vagabundo não ensinou a dama a ser livre.
Eles apenas ficaram. E isso já era muito.
Pela primeira vez, ela não precisou explicar por que estava quieta.
E ele, pela primeira vez, não precisou falar para existir.
Porque às vezes o amor não nasce da voz,
nasce de alguém