Não aprendi o mundo pela casa,
aprendi pelo movimento.
Antes que a disciplina aprendesse meu nome,
meu corpo já pressentia rotas de fuga
no sal do vento.
Havia um tambor invisível marcando os dias,
um pulso severo,
e um dementador que exigia vigilância constante.
Mas foi a água indomável, essa que não promete abrigo,
quem me ensinou permanência.
O oceano não ordena.
Convoca.
Diante dele, aprendi o pacto antigo:
quem encara a força que pode dissolver o corpo
não se curva facilmente
às violências sem rosto.
O mar me chamou por telepatia.
Disse: entra.
E eu entrei.
As ondas me salvaram dos pensamentos densos
e me ensinaram sobre confiança.
Se eu podia enfrentar um mar bravo,
também podia encerrar relações tóxicas,
paredes emocionais
e afetos que ferem.
Minha mente corre como cardume em alerta,
saltando ideias, antecipando perigos,
criando caminhos onde não há trilha.
Chamaram isso de excesso.
Eu chamo de adaptação sagrada.
Foi assim que sobrevivi.
Vi espelhos líquidos translúcidos
e fúrias cinzentas se erguerem do fundo.
Vi asas cortando o céu em presságios,
casco antigo rompendo a superfície do tempo,
riso de golfinho zombando da gravidade humana.
Vi a chuva quente costurar o céu
em um caleidoscópio de cores,
e ondinas dançarem na pele da água.
Entre mulheres do mar,
aprendi que força não é domínio,
é escuta profunda.
E o próprio oceano me confiou uma tarefa:
proteger aquilo que me protege.
Por isso atravessei a ciência
sem abandonar o mito.
Leio gráficos como quem lê búzios,
defendo florestas como quem protege ancestrais,
falo por recifes como quem traduz
um idioma antigo.
Nem todos entenderam.
Alguns confundiram cuidado com recurso,
sonho com capital,
vida com posse.
Doou-se muito.
Quebrou-se muito.
Hoje minhas mãos ainda oferecem,
mas meus olhos reconhecem sombras
antes que virem abraço.
E então, um canarinho cruzou meu caminho,
nascido do mesmo vento salgado,
companheiro de correnteza.
Ele me lembrou
que ainda há gente
que não negocia a alma.
Enquanto isso, o mundo estala.
Há poderes erguidos sobre ossos invisíveis,
mapas redesenhados por ganância,
ventres transformados em contrato,
verdades sequestradas
antes de chegarem ao ouvido.
Há figuras que desejam coroas de aço,
impérios sem memória,
poder sem raiz.
O medo circula.
Mas não me governa.
Venho de uma linhagem que conhece dilúvio.
Sei que estruturas rígidas afundam.
Que o sal corrói as armaduras.
Que nenhum império sobrevive ao tempo
quando esquece o sagrado.
Eles tentam erguer civilizações sobre areia,
comprar vozes,
avaliar corpos,
calar a vida com cifras.
Mas eu sou do mar.
E o mar não reconhece reis.
Ele engole impérios
sem pressa,
sem discurso,
sem ódio.
Devolve conchas, ossos polidos,
nomes esquecidos.
E segue
antigo,
indomável,
sabendo que tudo o que não aprende a escutar
acaba virando sedimento.