SADE

ensaio para dança

 

a morte não bate à porta.
ela encosta.
como quem conhece o ritmo da casa,
como quem já dormiu aqui antes.

ela chega sem pressa,
com esse perfume de terra molhada
e promessas antigas.
não me pede nada 
me oferece.

senta-se ao meu lado na beira da cama
e cruza as pernas como quem sabe
que será convidada a ficar.
não fala de fim.
fala de descanso.
fala de soltar os nós que o dia aperta
demais.

há dias em que flertamos sem tocar:
eu, distraído, vivendo;
ela, paciente, me observando
pela fresta do tempo.
sorrimos um para o outro
em acidentes pequenos,
em sustos,
em silêncios longos demais.

a morte sabe dançar.
conduz sem força,
sem empurrar.
apoia a mão na minha cintura
e espera que eu confie.
e eu confio 
porque o cansaço também é uma forma de fé.

rodopiamos entre memórias,
corpos que fui,
nomes que perdi,
amores que morreram antes de mim
e me ensinaram
que morrer é só outra maneira
de mudar de quarto.

ela me chama de perto
como quem diz:
“não agora 
mas um dia”.
e esse “um dia”
é um fio invisível
que nos mantém ligados
todos os dias.

há algo erótico nesse pacto silencioso:
saber que sou desejado
pelo fim.
que meu corpo, tão provisório,
é objeto de espera.
que alguém me quer inteiro
quando eu já não quiser mais
nada.

a morte não me assusta.
ela me seduz.
porque promete aquilo
que a vida raramente cumpre:
inteireza.
entrega sem ruído.
um abraço onde não é preciso
se explicar.

quando ela enfim me puxar
para mais perto 
quando nossos passos coincidirem 
não será queda.
será inclinação.
como quem se rende
não por derrota,
mas por desejo.

até lá, seguimos assim:
ela me rondando com olhos de amante,
eu vivendo como quem ensaia,
todos os dias,
essa dança lenta
com o escuro
que me conhece pelo nome.