Andre Matheus

Em cima da linha

O dia começa claro

e, sem aviso,

uma nuvem fecha o céu por dentro.

Não chove fora.

Chove onde ninguém vê.

 

Há instantes de sol aberto:

calor que se espalha,

vontade de ficar,

de tocar o mundo sem medo.

Tudo parece possível

por alguns minutos inteiros.

 

Depois, o vento vira.

O mesmo lugar já não serve.

O barulho cansa.

A luz pesa.

O corpo pede abrigo

do que antes procurava.

 

As mudanças não seguem relógio.

São como maré curta,

indo e voltando

no mesmo espaço de tempo.

O que era calma

vira ressaca.

O que era distância

logo chama de novo.

 

Nada é falso no movimento.

Cada estado é verdadeiro

enquanto dura.

O problema é que dura pouco

e tudo chega intenso demais

para ser contido.

 

Quem observa de perto

aprende a ler sinais no ar:

o olhar que escurece,

o silêncio que anuncia tempestade,

o retorno súbito do calor

como se nada tivesse passado.

 

Não é falta de centro.

É excesso de corrente.

Tudo se move rápido,

porque parar

seria afundar.

 

E assim o humor segue,

como tempo imprevisível:

não para destruir,

mas porque não sabe

ficar igual por muito tempo.